Sinais de Pentecostes.


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No início, Adão era uma estátua de barro, porém Deus soprou sobre ele um espírito de vida e ele se tornou um ser vivo. Muito tempo depois, o Espírito de Deus veio sobre Maria e nela apareceu uma nova vida, a vida do novo Adão; a vida deu um grande salto de qualidade! Mais tarde, o Espírito de Deus veio ao sepulcro de Cristo e o reanimou e fez Jesus retornar à vida.

Mais uma vez, o Espírito veio sobre os apóstolos, em Pentecostes, e encontrou um punhado de homens temerosos, medrosos, inertes como Adão quando era uma estátua de barro e, com suas línguas de fogo, o Espírito fez aparecer a Igreja, corpo vivo de Cristo. Nós, que somos a Igreja, somos corpo vivo de Cristo pelo Espírito Santo.

A cada Eucaristia, o Espírito Santo desce sobre o altar e transforma o pão e o vinho em corpo e sangue vivo de Cristo. E um dia, no fim do mundo, o Espírito virá e dará vida aos nossos corpos mortais e nos fará ressurgir para a vida eterna.



De Saulo a Paulo

Agora vou lhes contar sobre a vida nova que o Espírito Santo me deu.

Até 1975, eu era um frade capuchinho que ensinava História das Origens Cristãs na Universidade de Milão, na Itália. Um dia, comecei a escutar pessoas que falavam de uma nova forma de rezar. Uma senhora, de quem eu era diretor espiritual, voltando de um retiro disse-me: “Encontrei pessoas que rezam de um modo estranho: levantam as mãos, batem palmas, são muito alegres e dizem que entre eles milagres acontecem”. Então eu lhe disse: “Nunca mais irás a essa casa de retiros”.

Esses dos quais aquela senhora falava eram carismáticos. Comecei a observá-los e via que algo daquilo que acontecia entre esses irmãos era exatamente aquilo que lemos nas primeiras comunidades cristãs.

Eu não podia negar que havia algo daqueles primórdios da Igreja, contudo havia fenômenos que me perturbavam, como falar em línguas, abraçar-se, profetizar…

Certo dia, fui quase forçado a um encontro carismático. Lá fui tomado de uma intensa e nova alegria, que não sabia explicar. Sentia-me sacudido. E, confessando as pessoas, percebia nelas um arrependimento novo, profundo. Eu podia ver e até tocar a graça de Deus. Mas continuava como um observador.

Em 1977, ganhei uma passagem para ir aos Estados Unidos, assistir à grande assembléia carismática ecumênica. Dentro de mim, dizia: “Isto vem de Deus, mas não me agrada”. E as 40 mil pessoas presentes ali cantavam: “Jericó deve cair”. Os meus colegas italianos me diziam: “Escuta bem, porque Jericó és tu”. Eles tinham razão, e Jericó caiu.

Depois do encontro fomos a uma comunidade carismática em New Jersey, onde aceitei receber a efusão do Espírito Santo, mas ainda com certa resistência. Um dos sinais do Pentecostes é Deus falar através dos humildes. Quando as pessoas rezavam por mim, todas as palavras proféticas pronunciadas falavam de evangelização, de Paulo que com Barnabé inicia suas viagens apostólicas, e um irmão proclamou: “Tu provarás de uma alegria nova em proclamar minha Palavra”.

Um detalhe importante é que enquanto se reza para que alguém receba a efusão do Espírito, se diz: “Escolhe Jesus como Senhor da tua vida” e, enquanto me diziam estas palavras, levantei os olhos e vi o crucifixo que estava sobre o altar da capela. Era como se Ele me esperasse para me dizer algo muito importante: “Atenção! Raniero, cuidado! Este é o Jesus que tu escolhes como teu Senhor, o Crucificado. Não é um Jesus fácil, sentimental”. Nesse momento, entendi que a RCC não é um fenômeno superficial, mas algo que nos leva diretamente ao coração do Evangelho, à cruz de Cristo.

Comecei a ler o breviário experimentando algo novo. Vocês sabem que um dos frutos mais evidentes do Espírito é abrir a nossa inteligência para entender as Escrituras. Outro sinal da transformação que o Espírito operara em mim era o novo desejo de rezar.

Três meses depois voltei à Itália e os meus irmãos diziam: “Que milagre! Mandamos à América Saulo e nos mandaram de volta Paulo”.

Pouco tempo depois, enquanto rezava com um grupo de oração em Milão, surpreendi-me fazendo a oração: “Senhor, não permita que eu morra como um professor universitário aposentado!” E o Senhor levou a sério minha oração.

Algumas semanas depois, rezando na cela de meu convento, tive a moção interior de visualizar Jesus que retornava do batismo no Jordão e começava a pregar o Reino de Deus, e ao passar por mim Ele dizia: “Se queres me ajudar a proclamar o Reino de Deus, deixa tudo e vem!”

Compreendi que Ele queria dizer: “Deixa tua cátedra na Universidade, tua direção de Departamento e te tornes um pregador itinerante da Palavra de Deus, no estilo de São Francisco de Assis”. E ao final daquela oração o Espírito havia colocado em meu coração um “sim”.

Fui ao meu superior geral dizer-lhe que me sentia chamado pelo Senhor. Ele me pediu para esperar um ano. Depois de um ano, ele disse: “Sim, é vontade de Deus, vá”. Assim, tornei-me pregador.

Foi o Espírito Santo e a experiência carismática que fizeram deste velho professor universitário um pregador do Evangelho.



A Casa Pontifícia


Três meses depois, recebi um telefonema de Roma, do meu superior geral que me dizia que o Santo Padre, João Paulo II, havia me escolhido como pregador da Casa Pontifícia. O Papa, com tudo o que tem para fazer, cada sexta-feira de manhã, durante a Quaresma e o Advento, deixa tudo e vem escutar a pregação de um frade capuchinho. Quantos de nós vão escutar pregações como o Papa? Ele não falta nunca. Certa vez, estando em viagem pela América Central, faltou a duas pregações; na sexta-feira seguinte, foi ao meu encontro e pediu desculpas por ter faltado a duas pregações.

Foi-me dada a oportunidade de fazer ressoar ali, no centro da Igreja, o que o Espírito Santo está fazendo na Igreja. O Senhor escolheu esse pobre frade capuchinho para fazer chegar ao coração da Igreja aquilo que vivemos aqui, esta força, esta esperança, esta certeza de que o Espírito Santo realizou um novo Pentecostes na Igreja.

Um dia, entendi que era hora de falar ao Papa, aos Cardeais, aos Bispos sobre a efusão no Espírito. Entre outras coisas, eu disse: “Alguns dizem que tendo recebido o Espírito Santo na Ordenação, no Batismo, não temos necessidade desta oração pedindo a efusão no Espírito, mas Jesus não poderia responder: “Eu também não estava cheio do Espírito desde o nascimento de Maria, e mesmo assim fui ao Jordão para ser batizado por um leigo que se chamava João Batista?”

No final da pregação, eu tinha um certo temor e veio ao meu encontro um Cardeal que me disse: “Hoje, nesta sala, ouvimos falar o Espírito Santo”.

O Santo Padre também sabe de minha experiência, pois lhe contei pessoalmente. Mesmo assim, já faz mais de 20 anos, e ele não me mandou embora. E aquilo que vocês encontram nos meus livros, quase tudo foi escutado antes pelo Papa.

Quero lhes contar um último detalhe que nos faz conhecer a grande paciência do Santo Padre e o seu imenso amor pela palavra de Deus. Uma vez por ano devo fazer a pregação, na Basílica de São Pedro, com o Papa que preside a celebração. É porém a única vez que não é ele quem prega. Lida a narração da Paixão, é o pregador da Casa Pontifícia quem deve subir ao altar do Papa e pregar. Na primeira vez, os degraus me pareciam mais altos que o monte Evereste. Falando na Basílica, dei-me conta de que deveria falar muito lentamente, porque há uma grande ressonância. Mas, falando lentamente, o tempo passava e ultrapassou em cerca de dez minutos o tempo previsto. Vocês sabem que imediatamente após essa pregação, toda sexta-feira da Paixão, o Papa vai ao Coliseu fazer a via-sacra, e o secretário, naturalmente, estava muito nervoso e olhava o relógio de vez em quando. No dia seguinte, disse às freiras que depois daquela função, o Papa o chamou e, com muita gentileza, disse: “Quando um homem de Deus fala, nunca devemos olhar o relógio”.



Coragem, e ao trabalho!


No dia em que meu superior me permitiu iniciar essa vida nova, no ofício das leituras havia um texto do profeta Ageu: “Coragem, Josué, sumo sacerdote, coragem Zorobabel, coragem todo o povo deste país, e ao trabalho. Coragem porque eu estou convosco, diz o Senhor” (Ag 2,4).

Lida essa passagem, fui à Praça de São Pedro e, olhando para a janela do Papa, comecei a gritar: “Coragem João Paulo II, mesmo se sabemos que és o homem mais corajoso do mundo; coragem Cardeais e Bispos, e ao trabalho, porque eu estou convosco, diz o Senhor”. Isso era fácil, pois não tinha ninguém lá, mas três meses depois eu me encontrava diante do Santo Padre e dos Cardeais e Bispos, e proclamei novamente aquela palavra de Ageu.

Hoje, anuncio estas palavras também a vocês: coragem, povo de Deus, e ao trabalho, à evangelização, à renovação da Igreja, porque eu estou convosco, diz o Senhor!

Frei Raniero Cantalamessa OFM Capuchinho

Goiânia sediará encontro com Frei Raniero Cantalamessa.

“A túnica era sem costura” Homilia da ultima Sexta Feira Santa.

Radicais Tradicionalis criticam a Pregação de Frei Raniero Cantalamessa em Roma.



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Seminário de Vida no Espirito
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Amar é a primeira e a ultima opção.

Ao corrigir o irmão, a primeira regra é o amor.

Comentário do Pe. Cantalamessa sobre a liturgia dominical.

XXIII Domingo do Tempo Comum

Ezequiel 33, 7-9; Romanos 13, 8-10; Mateus 18, 15-20

Se teu irmão chegar a pecar…

No Evangelho deste domingo lemos: «Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: ‘Se teu irmão chegar a pecar, vai e repreendê-o, a sós tu e ele. Se te escutar, terás ganhado um irmão’». Jesus fala de toda culpa; não restringe ao campo apenas do que se comete contra nós. Neste último caso, de fato, é praticamente impossível distinguir se o que nos move é o zelo pela verdade ou nosso amor próprio ferido. Em todo caso, seria mais uma autodefesa que uma correção fraterna. Quando a falta é contra nós, o primeiro dever não é a correção, mas o perdão.

Por que Jesus diz: «repreende-o a sós»? Antes de tudo, por respeito ao bom nome do irmão, à sua dignidade. O pior seria pretender corrigir um homem na presença da sua esposa, ou uma mulher na presença do seu marido; um pai diante de seus filhos, um professor na presença dos seus alunos, um superior diante dos seus subordinados. Isto é, na presença das pessoas cujo respeito e estima para alguém importa mais. O assunto se converte imediatamente em um processo público. Será muito difícil que a pessoa aceite de bom grado a correção.

Ele diz «a sós tu e ele» também para dar à pessoa a possibilidade de defender-se e explicar sua própria ação com toda liberdade. Muitas vezes, com efeito, aquilo que para um observador externo parece uma culpa, na intenção de quem a cometeu não o é. Uma explicação sincera dissipa muitos mal-entendidos. Mas isso deixa de ser possível quando o tema é conhecido por muitos.

Quando por qualquer motivo não é possível corrigir fraternalmente, a sós, na presença da pessoa que errou, há algo que se deve evitar absolutamente: a divulgação, sem necessidade, da culpa do irmão, falar mal dele ou inclusive caluniá-lo, dando por provado aquilo que não o é ou exagerando a culpa. «Não faleis mal uns dos outros», diz a Escritura (Tiago 4, 11). A fofoca não é menos mal ou menos grave só porque agora é chamada de «gossip».

Uma vez uma mulher foi se confessar com São Felipe Néri, acusando-o de ter falado mal de algumas pessoas. O santo a absolveu, mas lhe pôs uma estranha penitência. Disse-lhe que fosse para casa, pegasse uma galinha e voltasse onde ele estava, depenando-a pouco a pouco ao longo do caminho. Quando esteve novamente diante dele, ele lhe disse: «Agora volta para casa e recolhe uma por uma das penas que deixaste cair quando vinhas para cá». A mulher lhe mostrou a impossibilidade: o vento as havia dispersado. Aí é onde queria chegar São Felipe. «Vês – disse-lhe – que é impossível recolher as penas uma vez que o vento as levou? Da mesma forma é impossível retirar murmurações e calúnias, uma vez que saíram da boca.»

Voltando ao tema da correção, deve-se dizer que nem sempre depende de nós o bom resultado ao fazer uma correção (apesar de nossas melhores disposições, o outro pode não aceitar, obstinar-se); contudo, depende sempre e exclusivamente de nós o bom resultado… ao receber uma correção. De fato, a pessoa que «cometeu a culpa» bem poderá ser eu e quem corrige ser o outro: o marido, a mulher, o amigo, o irmão de comunidade ou o padre superior.

Em resumo, não existe só a correção ativa, mas também a passiva; não só o dever de corrigir, mas também o dever de deixar-se corrigir. Mais ainda: aqui é onde se vê se alguém amadureceu o bastante como para corrigir os demais. Quem quer corrigir o outro deve estar disposto também a deixar-se corrigir. Quando vês alguém receber uma observação e responder com simplicidade: «Tens razão, obrigado por ter me dito isso!», admira-o: estás diante de um autêntico homem ou de uma autêntica mulher.

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O ensinamento de Cristo sobre a correção fraterna deveria ser lido sempre junto ao que Ele disse em outra ocasião: «Como olhas o cisco no olho do teu irmão e não vês a trave que há em teu? Como podes dizer a teu irmão: ‘Irmão, deixa que tire o cisco que há em teu olho’, não vendo tu mesmo a trave que há no teu?» (Lc 6, 41s.).

O que Jesus nos ensinou sobre a correção pode ser também muito útil quanto à educação dos filhos. A correção é um dos deveres fundamentais do progenitor: «Que filho há a quem seu pai não corrige?» (Hb 12, 7); e também: «Endereça a planta enquanto está terna, se não queres que cresça irremediavelmente torcida». A renúncia total a toda forma de correção é um dos piores serviços que se pode fazer aos filhos e hoje infelizmente isso é freqüentíssimo.

Só se deve evitar que a própria correção se transforme em um ato de acusação ou em uma crítica. Ao corrigir, deve-se circunscrever a reprovação ao erro cometido, não generalizá-la, rejeitando toda a pessoa e sua conduta. Mais ainda: aproveitar a correção para pôr em primeiro plano todo o bem que se reconhece no jovem e o muito que se espera dele, de maneira que a correção se apresente mais como um estímulo que como uma desqualificação. Este era o método que São João Bosco usava com seus jovens.

Não é fácil, em casos individuais, compreender se é melhor corrigir ou deixar passar, falar ou calar. Por isso, é importante levar em conta a regra de ouro, válida para todos os casos, que o Apóstolo dá na segunda leitura: «Com ninguém tenhais outra dívida que a do amor mútuo… O amor não faz mal ao próximo». Agostinho sintetizou tudo isso na máxima «Ama e faze o que queres». É preciso garantir antes de tudo que haja no coração uma disposição fundamental de acolhida para da pessoa. Depois, o que se decida fazer, seja corrigir ou calar, estará bem, porque o amor «jamais causa dano a ninguém».


Fonte: Notícias RTP.PT – Portugal.

http://tv1.rtp.pt/noticias/?t=Pregador-oficial-do-Papa-Bento-XVI-pede-desculpas.rtp&article=333432&visual=3&layout=10&tm=7


Jesus é Misericordioso

Temos um grande sumo sacerdote !

“Temos um grande sumo sacerdote”. Pregação da Sexta-Feira Santa 2010.

Pregação que gerou a grande polêmica sobre o antisemitismo e as associações de vítimas da Pedofilia.

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“Temos um grande Sumo Sacerdote que atravessou os céus, Jesus, o Filho de Deus”: assim se inicia o trecho da Carta aos Hebreus que ouvimos na segunda leitura. No ano sacerdotal, a liturgia da Sexta-feira Santa nos convida a percorrer a origem histórica do sacerdócio cristão.Esta é a fonte de ambas realizações do sacerdócio: aquela ministerial, dos bispos e presbíteros, e aquela universal, de todos os fiéis. Também esta, de fato, está fundamentada no sacrifício de Cristo que, como diz o Apocalipse, “nos ama, que nos lavou de nossos pecados no seu sangue e que fez de nós um reino de sacerdotes para Deus e seu Pai” (Ap 1, 5-6).

É de vital importância, portanto, compreender a natureza do sacrifício e do sacerdócio de Cristo, pois é neles que sacerdotes e leigos, embora de maneiras diferentes, devem se inspirar e buscar viver suas exigências.

A Carta aos Hebreus explica no que consiste a novidade e o caráter único do sacerdócio de Cristo, não apenas com relação ao sacerdócio da antiga aliança, mas também, como nos ensina a história das religiões, com relação a toda instituição sacerdotal, inclusive fora da Bíblia. “Cristo, sumo sacerdote dos bens vindouros […] adentrou de uma vez por todas no santuário, não com o sangue de carneiros ou novilhos, mas com seu próprio sangue”. Desse modo, adquiriu para nós a redenção eterna. “Pois se o sangue de carneiros e de touros e a cinza de uma vaca, com que se aspergem os impuros, santificam e purificam pelo menos os corpos, quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu como vítima sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência das obras mortas para o serviço do Deus vivo!” (Hb 9, 11-14).

Qualquer outro sacerdote oferece algo externo a si, mas Cristo ofereceu a si próprio; qualquer outro sacerdote oferece vítimas, mas Cristo ofereceu a si mesmo como vítima! Santo Agostinho sintetizou em uma fórmula bem conhecida este novo gênero de sacerdócio, no qual sacerdote e vítima são uma coisa só: “Ideo sacerdos, quia sacrificium”: “sacerdote porque vítima” [1].

Em 1972, um célebre pensador francês lançava a tese segundo a qual “a violência é o coração e a alma secreta do sagrado” [2]. De fato, na origem e no centro de qualquer religião está o sacrifício, e o sacrifício encerra morte e destruição. O jornal “Le Monde” saudava esta afirmação, dizendo que fazia daquele ano “um ano a ser assinalado com um asterisco nos anais da humanidade”. No entanto, já anteriormente a esta data, este estudioso se aproximara do cristianismo, e na Páscoa de 1959, havia tornado pública sua “conversão”, declarando-se crente e voltando à Igreja.

Isto o permitiu, em seus estudos subsequentes, não se deter na análise do mecanismo da violência, mas expor os meios de superá-la. Infelizmente, muitos continuam a citar René Girard apenas como aquele que denunciou a ligação entre o sagrado e a violência, mas não mencionam o Girard que evidenciou, no mistério pascal de Cristo, a ruptura total e definitiva desta ligação. Para ele, Jesus desmascara e desfaz o mecanismo de bode expiatório que sacraliza a violência, ao fazer-se ele próprio, inocente, vítima de toda a violência [3]. O processo no qual estaria a gênese da religião, segundo Freud, é assim derrubado.

Em Cristo, é Deus quem se faz vítima, e não a vítima (para Freud, o pai primordial) que, ao ser sacrificada, é sucessivamente elevada à dignidade divina (o Pai dos céus). Já não é o homem que oferece sacrifícios a Deus, mas é Deus quem se “sacrifica” pelo homem, entregando à morte seu Filho unigênito (cf. Jo 3,16). Assim, o sacrifício não mais se destina a “aplacar” a divindade, mas a aplacar o homem, fazendo-o renunciar a sua hostilidade nas relações com Deus e com o próximo.

Cristo não veio portando o sangue de outros, mas seu próprio sangue. Não pôs seus próprios pecados sobre os ombros de outros – fossem homens ou animais; ao contrário, sustentou os pecados dos outros sobre seus próprios ombros: “Carregou os nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro” (1 Pe 2, 24).

É possível, então, continuar a falar em sacrifício ao referir-se à morte de Cristo, e portanto à Missa? Durante muito tempo, o estudioso citado rejeitou esta ideia, considerando-a por demais associada ao conceito de violência; mas, posteriormente, passou a aceitar a possibilidade de um novo gênero de sacrifício em Cristo, vendo nessa mudança de significado “o fato central da história religiosa da humanidade”.

Visto sob essa ótica, o sacrifício de Cristo contém uma mensagem formidável para o mundo de hoje. Grita para o mundo que a violência é um resíduo arcaico, uma regressão a estágios primitivos e superados da história humana e, em se tratando de crentes, um retardamento censurável e escandaloso frente à tomada de consciência do salto de qualidade operado por Cristo.

Lembra-nos também que a violência está derrotada. Em quase todos os mitos antigos, a vítima é a derrotada e o carrasco, o vencedor. Jesus alterou o sentido da vitória. Inaugurou um novo gênero de vitória, que não consiste em fazer vítimas, mas sim em fazer-se vítima. “Victor quia victima!”, vencedor porque vítima, assim Agostinho define o Jesus da cruz [4].

O valor moderno da defesa das vítimas, dos fracos e da vida ameaçada tem origem no terreno do cristianismo, sendo um fruto tardio da revolução operada por Cristo. Dispomos de uma contra-prova.

Somente ao abandonar a visão cristã (como fez Nietzsche) para retomar a pagã, é que se perde esta conquista e volta-se a exaltar “o forte, o poderoso, até sua expressão mais sublime, o super-homem”, definindo-se a moral cristã como “uma moral de escravos”, fruto do ressentimento impotente contra os fortes.

Lamentavalmente, porém, a mesma cultura moderna que condena a violência a favorece e exalta, paralelamente. Rasgamos as vestes diante de alguns acontecimentos sanguinários, mas não nos damos conta de que se prepara o terreno para que estes ocorram justamente com aquilo que é anunciado nas páginas dos jornais ou nos programas de televisão.

O gosto com o qual se fala da violência e a sanha de ser o primeiro e mais cru ao descrevê-la nada mais fazem que promovê-la. O resultado não é uma catarse do mal, mas sim um incitamento a este. É inquietante que a violência e o sangue tenham se tornado alguns dos ingredientes de maior apelo nos filmes e nos vídeo-games, e que sejamos tão atraídos por eles a ponto de nos parecer divertido contemplá-los.

O mesmo estudioso que já mencionamos evidenciou a matriz na qual se dá o mecanismo da violência: o mimetismo, aquela inclinação humana inata de considerar desejáveis as coisas desejadas pelos outros, e que leva a repetir aquilo que vemos outros fazerem. A psicologia do pacote é justo aquela que conduz à escolha do “bode expiatório”, para encontrar, na luta contra um inimigo comum – em geral, o elemento mais frágil, o diferente – uma coesão, ainda que momentânea e artificial.

Temos exemplos desta dinâmica na violência recorrente nos estádios de futebol, no bullying nas escolas e em certas manifestações públicas que deixam um rastro de destruição por onde passam. Uma geração de jovens que teve o raríssimo privilégio de não ter conhecido uma verdadeira guerra e de não terem sido jamais convocados às armas, diverte-se (por que se trata de uma brincadeira, ainda que estúpida e eventualmente trágica) inventando pequenas guerras, impelidos pelos mesmos instintos que moviam as hordas primordiais.

Mas há uma violência ainda mais grave e disseminada do que esta dos jovens nos estádios e nas ruas. Não me refiro àquela violência dirigida às crianças, com a qual estão manchados até mesmo elementos do clero; sobre essa violência já se fala suficientemente em outros âmbitos. Falo da violência contra a mulher. Esta é uma ocasião apropriada para levar as pessoas e instituições que lutam contra essa violência à compreensão de que Cristo é seu melhor aliado.

Trata-se de uma violência que se torna ainda mais grave quando cometida no abrigo e na intimidade do lar, frequentemente justificada com base em preconceitos pseudo-religiosos e culturais. As vítimas encontram-se desesperadamente sós e indefesas. Somente hoje, graças ao apoio das muitas associações e instituições, é que algumas mulheres encontram forças para denunciar seus agressores.

Muito dessa violência tem um fundo sexual. É o macho que acredita demonstrar sua virilidade ao submeter a mulher, sem se dar conta de que, desse modo, evidencia tão simplesmente sua insegurança e sua covardia. Também na relação com a mulher que erra, que contraste há entre o agir de Cristo e aquele que ainda verificamos em certos ambientes! O fanatismo invoca o apedrejamento; Cristo responde, àqueles que lhe haviam apresentado a adúltera: “Quem de vós não tiver pecado, que atire a primeira pedra” (Jo 8, 7). O adultério é um pecado que se comete sempre a dois, mas para o qual apenas um tem sido sempre (em algumas partes do mundo, ainda hoje) punido.

A violência contra a mulher torna-se ainda mais odiosa ao refugiar-se justamente no ambiente onde deveria reinar o respeito recíproco e o amor – na relação marido e mulher. É verdade que a violência não advém sempre de uma das partes, e que se pode ser violento também com a língua e não apenas com as mãos; mas não se pode negar que, na vasta maioria dos casos, a vítima é a mulher.

Há famílias nas quais o homem se julga autorizado a levantar a voz e as mãos para a dona de casa. Esposa e filhos vivem sob a constante ameaça da “ira do papai”. A estes homens talvez valesse dizer: “Caros colegas homens, criando-vos varões, Deus não vos concedeu o direito de bater os punhos contra a mesa por qualquer motivo. A palavra dirigida a Eva após sua culpa “Ele (homem) te dominará” (Gn 3,16), era uma amarga previsão, não uma autorização.

João Paulo II inaugurou a prática de pedir perdão por erros coletivos. Um desses pedidos de perdão, talvez entre os mais justos e necessários, é o perdão que uma metade da humanidade deveria pedir à outra metade, os homens às mulheres. Esse pedido não deve permanecer genérico ou abstrato. Deve levar a gestos concretos de conversão, a palavras de desculpas e de reconciliação no seio da família e da sociedade.

O trecho da Carta aos Hebreus que ouvimos prossegue dizendo: “Nos dias de sua carne, em alta voz e com lágrimas nos olhos, ofereceu orações e súplicas àquele que poderia salvá-lo da morte”. Jesus conheceu toda a crueza da condição de vítima, o grito sufocado e as lágrimas silenciosas. Na verdade, “não dispomos de um sumo sacerdote que não possa partilhar conosco nossas fraquezas”. Em cada vítima da violência Cristo revive misteriosamente sua experiência terrena. A esse propósito diz ele “foi a mim mesmo que o fizestes” (Mt 25, 40).

Por uma rara coincidência, neste ano nossa Páscoa cai na mesma semana da Páscoa judaica, que é a matriz na qual esta se constituiu. Isso nos estimula a voltar nosso pensamento aos nossos irmãos judeus. Estes sabem por experiência própria o que significa ser vítima da violência coletiva e também estão aptos a reconhecer os sintomas recorrentes. Recebi nestes dias uma carta de um amigo judeu e, com sua permissão, compartilho um trecho convosco. Dizia:

“Tenho acompanhado com desgosto o ataque violento e concêntrico contra a Igreja, o Papa e todos os féis do mundo inteiro. O recurso ao estereótipo, a passagem da responsabilidade pessoal para a coletividade me lembram os aspectos mais vergonhosos do anti-semitismo. Desejo, portanto, expressar à ti pessoalmente, ao Papa e à toda Igreja minha solidariedade de judeu do diálogo e de todos aqueles que no mundo hebraico (e são muitos) compartilham destes sentimentos de fraternidade. A nossa Páscoa e a vossa têm indubitáveis elementos de alteridade, mas ambas vivem na esperança messiânica que seguramente reunirá no amor do Pai comum. Felicidades a ti e a todos os católicos e Boa Páscoa”.

Também nós, católicos, felicitamos os irmãos judeus, desejando-lhes Boa Páscoa. E o fazemos com palavras de seu antigo mestre Gamaliel, inseridas no Seder pascal hebraico e incorporadas na mais antiga liturgia cristã:

“Ele nos conduziu

da escravidão à liberdade,

da tristeza à alegria,

do luto à festa,

das trevas à luz,

da servidão à redenção

Por isso diante dele dizemos: Aleluia” [5]

[Tradução de Paulo Marcelo Silva –

Agência ZENIT]

* * *

Notas originais em italiano:

[1] S. Agostino, Confessioni, 10,43.


[2] Cfr. R. Girard, La violence et le sacré, Grasset, Parigi 1972
[3] M. Kirwan, Discovering Girard, Londra 2004.
[4] S. Agostino, Confessioni, 10,43.
[5] Pesachim, X,5 e Melitone di Sardi, Omelia pasquale,68 (SCh 123, p.98).

Leia o texto completo…



Frei Raniero Cantalamessa

Pregações na Casa Pontifícia

O Frei Capuchinho Raniero Cantalamessa, Pregador oficial de Bento XVI leu uma carta durante sua pregação desta Sexta-feira Santa em que se fazia um paralelo entre as acusações contra o Papa e contra a Igreja a propósito dos escândalos da Pedofilia com o antisemitismo, fato que não foi bem interpretado por muitas pessoas e por isso o Frei Raniero vem a público pedir desculpas em seu nome e em nome do Papa Bento XVI aos judeus e às vítimas da pedofilia.


Fonte: Pag. Oficial de Frei Raniero.

http://www.cantalamessa.org/pt/predicheView.php?id=357


Jesus é Misericordioso
Páscoa


“Temos um grande Sumo Sacerdote que atravessou os céus, Jesus, o Filho de Deus”: assim se inicia o trecho da Carta aos Hebreus que ouvimos na segunda leitura. No ano sacerdotal, a liturgia da Sexta-feira Santa nos convida a percorrer a origem histórica do sacerdócio cristão.Esta é a fonte de ambas realizações do sacerdócio: aquela ministerial, dos bispos e presbíteros, e aquela universal, de todos os fiéis. Também esta, de fato, está fundamentada no sacrifício de Cristo que, como diz o Apocalipse, “nos ama, que nos lavou de nossos pecados no seu sangue e que fez de nós um reino de sacerdotes para Deus e seu Pai” (Ap 1, 5-6).

É de vital importância, portanto, compreender a natureza do sacrifício e do sacerdócio de Cristo, pois é neles que sacerdotes e leigos, embora de maneiras diferentes, devem se inspirar e buscar viver suas exigências.

A Carta aos Hebreus explica no que consiste a novidade e o caráter único do sacerdócio de Cristo, não apenas com relação ao sacerdócio da antiga aliança, mas também, como nos ensina a história das religiões, com relação a toda instituição sacerdotal, inclusive fora da Bíblia. “Cristo, sumo sacerdote dos bens vindouros […] adentrou de uma vez por todas no santuário, não com o sangue de carneiros ou novilhos, mas com seu próprio sangue”. Desse modo, adquiriu para nós a redenção eterna. “Pois se o sangue de carneiros e de touros e a cinza de uma vaca, com que se aspergem os impuros, santificam e purificam pelo menos os corpos, quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu como vítima sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência das obras mortas para o serviço do Deus vivo!” (Hb 9, 11-14).

Qualquer outro sacerdote oferece algo externo a si, mas Cristo ofereceu a si próprio; qualquer outro sacerdote oferece vítimas, mas Cristo ofereceu a si mesmo como vítima! Santo Agostinho sintetizou em uma fórmula bem conhecida este novo gênero de sacerdócio, no qual sacerdote e vítima são uma coisa só: “Ideo sacerdos, quia sacrificium”: “sacerdote porque vítima” [1].

Em 1972, um célebre pensador francês lançava a tese segundo a qual “a violência é o coração e a alma secreta do sagrado” [2]. De fato, na origem e no centro de qualquer religião está o sacrifício, e o sacrifício encerra morte e destruição. O jornal “Le Monde” saudava esta afirmação, dizendo que fazia daquele ano “um ano a ser assinalado com um asterisco nos anais da humanidade”. No entanto, já anteriormente a esta data, este estudioso se aproximara do cristianismo, e na Páscoa de 1959, havia tornado pública sua “conversão”, declarando-se crente e voltando à Igreja.

Isto o permitiu, em seus estudos subsequentes, não se deter na análise do mecanismo da violência, mas expor os meios de superá-la. Infelizmente, muitos continuam a citar René Girard apenas como aquele que denunciou a ligação entre o sagrado e a violência, mas não mencionam o Girard que evidenciou, no mistério pascal de Cristo, a ruptura total e definitiva desta ligação. Para ele, Jesus desmascara e desfaz o mecanismo de bode expiatório que sacraliza a violência, ao fazer-se ele próprio, inocente, vítima de toda a violência [3]. O processo no qual estaria a gênese da religião, segundo Freud, é assim derrubado.

Em Cristo, é Deus quem se faz vítima, e não a vítima (para Freud, o pai primordial) que, ao ser sacrificada, é sucessivamente elevada à dignidade divina (o Pai dos céus). Já não é o homem que oferece sacrifícios a Deus, mas é Deus quem se “sacrifica” pelo homem, entregando à morte seu Filho unigênito (cf. Jo 3,16). Assim, o sacrifício não mais se destina a “aplacar” a divindade, mas a aplacar o homem, fazendo-o renunciar a sua hostilidade nas relações com Deus e com o próximo.

Cristo não veio portando o sangue de outros, mas seu próprio sangue. Não pôs seus próprios pecados sobre os ombros de outros – fossem homens ou animais; ao contrário, sustentou os pecados dos outros sobre seus próprios ombros: “Carregou os nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro” (1 Pe 2, 24).

É possível, então, continuar a falar em sacrifício ao referir-se à morte de Cristo, e portanto à Missa? Durante muito tempo, o estudioso citado rejeitou esta ideia, considerando-a por demais associada ao conceito de violência; mas, posteriormente, passou a aceitar a possibilidade de um novo gênero de sacrifício em Cristo, vendo nessa mudança de significado “o fato central da história religiosa da humanidade”.

Visto sob essa ótica, o sacrifício de Cristo contém uma mensagem formidável para o mundo de hoje. Grita para o mundo que a violência é um resíduo arcaico, uma regressão a estágios primitivos e superados da história humana e, em se tratando de crentes, um retardamento censurável e escandaloso frente à tomada de consciência do salto de qualidade operado por Cristo.

Lembra-nos também que a violência está derrotada. Em quase todos os mitos antigos, a vítima é a derrotada e o carrasco, o vencedor. Jesus alterou o sentido da vitória. Inaugurou um novo gênero de vitória, que não consiste em fazer vítimas, mas sim em fazer-se vítima. “Victor quia victima!”, vencedor porque vítima, assim Agostinho define o Jesus da cruz [4].

O valor moderno da defesa das vítimas, dos fracos e da vida ameaçada tem origem no terreno do cristianismo, sendo um fruto tardio da revolução operada por Cristo. Dispomos de uma contra-prova.

Somente ao abandonar a visão cristã (como fez Nietzsche) para retomar a pagã, é que se perde esta conquista e volta-se a exaltar “o forte, o poderoso, até sua expressão mais sublime, o super-homem”, definindo-se a moral cristã como “uma moral de escravos”, fruto do ressentimento impotente contra os fortes.

Lamentavalmente, porém, a mesma cultura moderna que condena a violência a favorece e exalta, paralelamente. Rasgamos as vestes diante de alguns acontecimentos sanguinários, mas não nos damos conta de que se prepara o terreno para que estes ocorram justamente com aquilo que é anunciado nas páginas dos jornais ou nos programas de televisão.

O gosto com o qual se fala da violência e a sanha de ser o primeiro e mais cru ao descrevê-la nada mais fazem que promovê-la. O resultado não é uma catarse do mal, mas sim um incitamento a este. É inquietante que a violência e o sangue tenham se tornado alguns dos ingredientes de maior apelo nos filmes e nos vídeo-games, e que sejamos tão atraídos por eles a ponto de nos parecer divertido contemplá-los.

O mesmo estudioso que já mencionamos evidenciou a matriz na qual se dá o mecanismo da violência: o mimetismo, aquela inclinação humana inata de considerar desejáveis as coisas desejadas pelos outros, e que leva a repetir aquilo que vemos outros fazerem. A psicologia do pacote é justo aquela que conduz à escolha do “bode expiatório”, para encontrar, na luta contra um inimigo comum – em geral, o elemento mais frágil, o diferente – uma coesão, ainda que momentânea e artificial.

Temos exemplos desta dinâmica na violência recorrente nos estádios de futebol, no bullying nas escolas e em certas manifestações públicas que deixam um rastro de destruição por onde passam. Uma geração de jovens que teve o raríssimo privilégio de não ter conhecido uma verdadeira guerra e de não terem sido jamais convocados às armas, diverte-se (por que se trata de uma brincadeira, ainda que estúpida e eventualmente trágica) inventando pequenas guerras, impelidos pelos mesmos instintos que moviam as hordas primordiais.

Mas há uma violência ainda mais grave e disseminada do que esta dos jovens nos estádios e nas ruas. Não me refiro àquela violência dirigida às crianças, com a qual estão manchados até mesmo elementos do clero; sobre essa violência já se fala suficientemente em outros âmbitos. Falo da violência contra a mulher. Esta é uma ocasião apropriada para levar as pessoas e instituições que lutam contra essa violência à compreensão de que Cristo é seu melhor aliado.

Trata-se de uma violência que se torna ainda mais grave quando cometida no abrigo e na intimidade do lar, frequentemente justificada com base em preconceitos pseudo-religiosos e culturais. As vítimas encontram-se desesperadamente sós e indefesas. Somente hoje, graças ao apoio das muitas associações e instituições, é que algumas mulheres encontram forças para denunciar seus agressores.

Muito dessa violência tem um fundo sexual. É o macho que acredita demonstrar sua virilidade ao submeter a mulher, sem se dar conta de que, desse modo, evidencia tão simplesmente sua insegurança e sua covardia. Também na relação com a mulher que erra, que contraste há entre o agir de Cristo e aquele que ainda verificamos em certos ambientes! O fanatismo invoca o apedrejamento; Cristo responde, àqueles que lhe haviam apresentado a adúltera: “Quem de vós não tiver pecado, que atire a primeira pedra” (Jo 8, 7). O adultério é um pecado que se comete sempre a dois, mas para o qual apenas um tem sido sempre (em algumas partes do mundo, ainda hoje) punido.

A violência contra a mulher torna-se ainda mais odiosa ao refugiar-se justamente no ambiente onde deveria reinar o respeito recíproco e o amor – na relação marido e mulher. É verdade que a violência não advém sempre de uma das partes, e que se pode ser violento também com a língua e não apenas com as mãos; mas não se pode negar que, na vasta maioria dos casos, a vítima é a mulher.

Há famílias nas quais o homem se julga autorizado a levantar a voz e as mãos para a dona de casa. Esposa e filhos vivem sob a constante ameaça da “ira do papai”. A estes homens talvez valesse dizer: “Caros colegas homens, criando-vos varões, Deus não vos concedeu o direito de bater os punhos contra a mesa por qualquer motivo. A palavra dirigida a Eva após sua culpa “Ele (homem) te dominará” (Gn 3,16), era uma amarga previsão, não uma autorização.

João Paulo II inaugurou a prática de pedir perdão por erros coletivos. Um desses pedidos de perdão, talvez entre os mais justos e necessários, é o perdão que uma metade da humanidade deveria pedir à outra metade, os homens às mulheres. Esse pedido não deve permanecer genérico ou abstrato. Deve levar a gestos concretos de conversão, a palavras de desculpas e de reconciliação no seio da família e da sociedade.

O trecho da Carta aos Hebreus que ouvimos prossegue dizendo: “Nos dias de sua carne, em alta voz e com lágrimas nos olhos, ofereceu orações e súplicas àquele que poderia salvá-lo da morte”. Jesus conheceu toda a crueza da condição de vítima, o grito sufocado e as lágrimas silenciosas. Na verdade, “não dispomos de um sumo sacerdote que não possa partilhar conosco nossas fraquezas”. Em cada vítima da violência Cristo revive misteriosamente sua experiência terrena. A esse propósito diz ele “foi a mim mesmo que o fizestes” (Mt 25, 40).

Por uma rara coincidência, neste ano nossa Páscoa cai na mesma semana da Páscoa judaica, que é a matriz na qual esta se constituiu. Isso nos estimula a voltar nosso pensamento aos nossos irmãos judeus. Estes sabem por experiência própria o que significa ser vítima da violência coletiva e também estão aptos a reconhecer os sintomas recorrentes. Recebi nestes dias uma carta de um amigo judeu e, com sua permissão, compartilho um trecho convosco. Dizia:

“Tenho acompanhado com desgosto o ataque violento e concêntrico contra a Igreja, o Papa e todos os féis do mundo inteiro. O recurso ao estereótipo, a passagem da responsabilidade pessoal para a coletividade me lembram os aspectos mais vergonhosos do anti-semitismo. Desejo, portanto, expressar à ti pessoalmente, ao Papa e à toda Igreja minha solidariedade de judeu do diálogo e de todos aqueles que no mundo hebraico (e são muitos) compartilham destes sentimentos de fraternidade. A nossa Páscoa e a vossa têm indubitáveis elementos de alteridade, mas ambas vivem na esperança messiânica que seguramente reunirá no amor do Pai comum. Felicidades a ti e a todos os católicos e Boa Páscoa”.

Também nós, católicos, felicitamos os irmãos judeus, desejando-lhes Boa Páscoa. E o fazemos com palavras de seu antigo mestre Gamaliel, inseridas no Seder pascal hebraico e incorporadas na mais antiga liturgia cristã:

“Ele nos conduziu

da escravidão à liberdade,

da tristeza à alegria,

do luto à festa,

das trevas à luz,

da servidão à redenção

Por isso diante dele dizemos: Aleluia” [5]

[Tradução de Paulo Marcelo Silva – Agência ZENIT]

* * *

Notas originais em italiano:

[1] S. Agostino, Confessioni, 10,43.
[2] Cfr. R. Girard, La violence et le sacré, Grasset, Parigi 1972
[3] M. Kirwan, Discovering Girard, Londra 2004.
[4] S. Agostino, Confessioni, 10,43.
[5] Pesachim, X,5 e Melitone di Sardi, Omelia pasquale,68 (SCh 123, p.98).

Frei Raniero Cantalamessa pede Desculpas!

O Frei Capuchinho Raniero Cantalamessa, Pregador oficial de Bento XVI leu uma carta durante sua pregação desta Sexta-feira Santa em que se fazia um paralelo entre as acusações contra o Papa e contra a Igreja a propósito dos escândalos da Pedofilia com o antisemitismo, fato que não foi bem interpretado por muitas pessoas e por isso o Frei Raniero vem a público pedir desculpas em seu nome e em nome do Papa Bento XVI aos judeus e às vítimas da pedofilia.

Esteve na origem da ultima polémica lançada à volta do escândalo da Pedofilia na Igreja Católica com vários membros da comunidade internacional judaica a indignar-se com a comparação indireta estabelecida por aquele que é o Pregador oficial do Sumo Pontífice da Igreja Católica, Apostólica Romana. Alguns lembraram que ainda não viram nenhuma segregação de padres católicos nem agressões físicas ou perseguições.

Em artigo publicado neste domingo pelo jornal italiano “Corriere della Será”, Raniero Cantalamessa tenta serenar os ânimos e pôr água fria na fervura pedindo desculpas aos judeus e muito especialmente àqueles que foram vítimas do holocausto nazista.

“Se contra a minha vontade feri a sensibilidade dos judeus e das vítimas da pedofilia, lamento-o profundamente e peço desculpas reafirmando a minha solidariedade com uns e com os outros”, declarou o Padre, único a poder rezar em nome do Papa.

A verdade é que a leitura feita nesta sexta-feira Santa durante a liturgia da Paixão de Cristo com autorização expressa do Papa de uma passagem de uma carta recebida de um judeu que revelava o apoio ao Papa e à Igreja Católica lançou um cataclismo com que a Igreja está a sentir grandes dificuldades para lidar.

“A utilização do estereótipo, a passagem da responsabilidade e da culpa individual à culpa colectiva, lembram-me os aspectos mais vergonhosos do anti-semitismo”, leu Cantalamessa perante milhares de devotos.

A comparação entre o anti-semitismo e o período difícil que a Igreja Católica europeia e norte-americana atravessa com a revelação de uma série de casos “antigos” de pedofilia provocaram uma profunda indignação nas associações de vítimas de pedofilia e nas comunidades judaicas cujos dirigentes se apressaram a exigir desculpas públicas do Sumo Pontífice Bento XVI.

O Vaticano não hesitou em admitir o carácter inapropriado da analogia afirmando que ela não representava a posição oficial da Igreja de Roma e reafirmando que ela não teria sido em todo o caso a intenção do Pregador oficial de Bento XVI, e tudo constituiria uma má interpretação das suas intenções que alegadamente se resumiriam a tornar público um apoio ao Santo Papa e à Igreja.

Na sua entrevista ao diário italiano Ranieri Cantalamessa garantiu aos católicos, aos judeus e às vítimas de pedofilia que Bento XVI não estava ciente do conteúdo da carta que autorizou ser lida na cerimónia litúrgica em causa.


“O Papa não só não inspirou (o sermão) também, como todos os outros, ouvia pela primeira vez as palavras que eu pronunciei durante a liturgia a São Pedro”, garantiu o prelado.

“Ninguém no Vaticano quis ler previamente o texto das minhas prédicas o que considero como uma enorme prova de confiança” acrescenta o franciscano capuchinho ao jornal.

Confirmando o esclarecimento anterior do Vaticano, Cantalamessa confirma que teve a ideia de inserir a carta do seu “amigo judeu” apenas porque ela parecia constituir “um testemunho de solidariedade para com o Papa”. “A minha intenção era absolutamente amigável nada hostil”, garante.

Quanto ao “bom amigo judeu” trata-se de um cidadão “italiano muito ligado à sua religião que me tinha autorizado a revelar o seu nome” acrescentando que não teve a intenção “de o envolver pessoalmente e agora muito menos”.

“Se eu tivesse imaginado que iria provocar uma polémica como esta, nunca a (a carta) teria se tornado pública” assegura o padre franciscano.

Cantalamessa está convencido que o seu amigo judeu nunca quis estabelecer uma comparação entre as perseguições aos judeus às atuais acusações de pedofilia e de encobrimento de atos de pedofilia de que a Igreja Católica tanto europeia como norte-americana enfrentam neste momento, mas antes

“estigmatizar um clima de anti-cristianismo que está a difundir-se na nossa sociedade ocidental”, acrescenta o polémico prelado.

.Leia o texto completo…



Frei Raniero Cantalamessa

Pregações na Casa Pontifícia

Pregador do Vaticano responsável por escrever e pronunciar os sermões na basílica de São Pedro durante a Quaresma e a Páscoa, o padre Cantalamessa, doutor em Teologia que ocupa a função desde 1980, é autor de muitos livros religiosos e apresentador de um programa religioso na televisão italiana.


Fonte: Notícias RTP.PT – Portugal.

http://tv1.rtp.pt/noticias/?t=Pregador-oficial-do-Papa-Bento-XVI-pede-desculpas.rtp&article=333432&visual=3&layout=10&tm=7


Jesus é Misericordioso
Páscoa


João Batista, mais que um Profeta.

São João Batista

«Mais que um profeta».

http://www.diocesedesantoamaro.com.br/pasaojoaobatista.html

Advento na Casa Pontifícia – 2007-12-14

Na vez passada, partindo do texto de Hebreus 1, 1-3, tentei traçar a imagem de Jesus segundo uma comparação com os profetas. Mas entre o tempo dos profetas e o de Jesus existe uma figura especial que faz o papel de ponte entre os primeiros e o segundo: João Batista. Nada melhor, no Novo Testamento, para evidenciar a novidade de Cristo, que a comparação com João Batista.

O tema do cumprimento, da mudança histórica, emerge nítido dos textos nos quais o próprio Jesus se expressa sobre sua relação com o Precursor. Atualmente os estudiosos reconhecem que as passagens que se lêem ao respeito nos evangelhos não são invenções ou adaptações apologéticas da comunidade, posteriores à Páscoa, mas se remontam na substância ao Jesus histórico. Alguns deles são, de fato, inexplicáveis se são atribuídos à comunidade cristã posterior [1].

Uma reflexão sobre Jesus e João Batista é também a melhor forma de estar em sintonia com a liturgia do Advento. As leituras do Evangelho do segundo e do terceiro domingo do Advento têm, de fato, no centro a figura e a mensagem do Precursor. Há uma progressão no Advento: na primeira semana a voz sobressalente é a do profeta Isaías, que anuncia o Messias de longe; na segunda e terceira semana é a do Batista, que anuncia o Cristo presente; na última semana, o profeta e o Precursor deixam o lugar para a Mãe, que o leva em seu seio.

Nesta capela, temos o Precursor ante nossos olhos em dois momentos. No muro lateral, nós o vemos no ato de batizar Jesus, inclinado para ele em sinal de reconhecimento de sua superioridade; no muro do fundo, na atitude da Déesis típica da iconografia bizantina.



1. A grande mudança


Em texto mais completo no qual Jesus se expressa sobre sua relação com João Batista é a passagem do Evangelho que a liturgia nos fará ler no próximo domingo na Missa. João, desde a prisão, envia seus discípulos para perguntar a Jesus: «És tu aquele que há de vir ou devemos esperar outro?»

(Mt 11, 2-6; Lc 7, 19-23).

A pregação do Mestre de Nazaré, a quem ele mesmo havia batizado e apresentado a Israel, parece a João que vai em uma direção diferente da reluzente que ele esperava. Mais que o juízo eminente de Deus, Ele pregava a misericórdia presente, oferecida a todos, justos e pecadores.

O mais significativo de todo o texto é o elogio que Jesus faz a João Batista, após ter respondido à sua pergunta: «O que fostes ver, então? Um profeta? Sim, eu vos digo, e mais do que um profeta […]. Em verdade vos digo que, entre os nascidos de mulher, não surgiu nenhum maior do que João, o Batista, e, no entanto, o menor No Reino dos Céus é maior do que ele. Desde os dias de João Batista até agora, o Reino dos Céus sofre violência, e violentos se apoderam dele. Porque todos os profetas bem como a Lei profetizaram, até João. E, se quiserdes dar crédito, ele é o Elias que deve vir. Que tem ouvidos, ouça!»

(Mt 11, 9-15).

Uma coisa se vê clara destas palavras: entre a missão de João o Batista e a de Jesus ocorreu algo decisivo, que constitui uma divisória entre duas épocas. O centro de gravidade da história se deslocou: o mais importante já não está em um futuro mais ou menos iminente, mas está «aqui e agora», no reino que já está operante na pessoa de Cristo. Entre as duas pregações, suscitou um salto de qualidade: o menor da nova ordem é superior ao maior da ordem precedente.

Este tema do cumprimento e de mudança de época encontra confirmação em muitos outros contextos do Evangelho. Basta recordar algumas palavras de Jesus como: «Aqui há alguém maior que Jonas […]. Aqui há alguém maior que Salomão!» (Mt 12, 41-42). «Felizes os vossos olhos, porque vêem, e vossos ouvidos, porque ouvem! Em verdade vos digo que muitos profetas e justos desejaram ver o que vós vedes, mas não o viram, e ouvir o que vós ouvis, mas não o ouviram» (Mt 13, 16-17). Todas as chamadas «parábolas do Reino» – como a do tesouro escondido e a da pérola preciosa – expressam, de maneira cada vez diferente e nova, a mesma idéia de fundo: com Jesus soou a hora decisiva da história: ante Ele se impõe a decisão da qual depende a salvação.

Foi esta a constatação que impulsionou os discípulos de Bultmann a separar-se do mestre. Bultmann situava Jesus no judaísmo, fazendo d’Ele uma premissa do cristianismo, não um cristão ainda; contudo, ele atribuía a grande mudança à fé da comunidade pós-pascal. Bornkamm e Conzelmann perceberam a impossibilidade destas teses: «a mudança histórica» ocorre já na pregação de Jesus. João pertence às «premissas» e à preparação, mas com Jesus já estamos no tempo do cumprimento.
Em seu livro «Jesus de Nazaré», o Santo Padre confirma esta conquista da exegese mais séria e atualizada. Escreve: «Para que se chegasse a esse confronto radical, de ser concebido até este extremo – de ser entregue aos romanos –, deve ter acontecido, deve ter sido dito algo dramático. O estimulante e o grandioso encontram-se precisamente no princípio; a Igreja em formação só lentamente é que devia reconhecê-los em toda a sua grandeza, gradualmente compreendê-los por meio de uma reflexão que ia se constituindo numa interior ‘recordação’. (…) O grandioso, o novo e estimulante têm sua origem precisamente em Jesus; na fé e na vida da comunidade isso é desenvolvido, mas não criado. Sim, a ‘comunidade’ não teria de modo nenhum se formado nem sobrevivido se uma realidade extraordinária não a precedesse» [2].

Na teologia de Lucas, é evidente que Jesus ocupa «o centro do tempo». Com sua vinda, Ele dividiu a historia em duas partes, criando um «antes» e um «depois» absolutos. Hoje se está convertendo em prática comum, especialmente na imprensa leiga, abandonar o modo tradicional de datar os acontecimentos «antes de Cristo» ou «depois de Cristo» (ante Christum natum e post Christum natum) a favor da fórmula mais neutra «antes da era comum» e «da era comum». É uma opção motivada pelo desejo de não irritar a sensibilidade de povos de outras religiões que utilizam a cronologia cristã. Em tal sentido, é preciso que respeitá-la, mas para os cristãos permanece indiscutível o papel «discriminante» da vinda de Cristo para a história religiosa da humanidade.

2. Ele vos batizará no Espírito Santo

Agora, como sempre, partamos da certeza exegética e teológica evidenciada para chegar ao hoje de nossa vida.

A comparação entre João Batista e Jesus se cristaliza no Novo Testamento na comparação entre o batismo de água e o batismo do Espírito. «Eu vos batizei com água, mas Ele vos batizará com o Espírito Santo» (Mc 1, 8; Mt 3, 11; Lc 3, 16). «Eu não o conhecia – diz João Batista no Evangelho de João –, mas aquele que me enviou para batizar com água, disse-me: ‘Aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer é o que batiza com o Espírito Santo’» (Jo 1, 33). E Pedro, na casa de Cornélio: «Lembrei-me, então, desta palavra do Senhor: ‘João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo’»

(Atos 11, 16).

O que quer dizer que Jesus é aquele que batiza no Espírito Santo? A expressão não só serve para distinguir o batismo de Jesus do de João; serve para distinguir toda a pessoa e obra de Cristo com relação à do Precursor. Em outras palavras, em toda sua obra, Jesus é aquele que batiza no Espírito Santo. Batizar aqui tem um significado metafórico: quer dizer inundar, envolver por todas as partes, como faz a água com os corpos submersos nela.

Jesus «batiza no Espírito Santo» no sentido de que recebe e dá o Espírito «sem medida» (Jo 3, 34), «infunde» seu Espírito (Atos 2, 3) sobre toda a humanidade redimida. A expressão se refere mais ao acontecimento de Pentecostes que ao sacramento do batismo. «João batizou com água, mas vós sereis batizados no Espírito Santo dentro de poucos dias» (Atos 1, 5), diz Jesus aos apóstolos, referindo-se evidentemente a Pentecostes, que aconteceria em breve.

A expressão «batizar no Espírito» define, portanto, a obra essencial do Messias, que já nos profetas do Antigo Testamento aparece orientada a regenerar a humanidade mediante uma grande e universal efusão do Espírito de Deus (Jl 3, 1 ss.). Aplicando tudo isso à vida e ao tempo da Igreja, devemos concluir que Jesus ressuscitado não batiza no Espírito Santo unicamente no sacramento do batismo, mas, de maneira diferente, também em outros momentos: na Eucaristia, na escuta da Palavra e, em geral, em todos os meios de graça.

Santo Tomás de Aquino escreve: «Existe uma missão invisível do Espírito cada vez que se realiza um progresso na virtude ou um aumento de graça…; quando alguém passa a uma nova atividade ou a um novo estado de graça» [3]. A própria liturgia da Igreja o inculca. Todas suas orações e seus hinos ao Espírito Santo começam com o grito: «Vinde!»: «Vinde, Espírito Criador», «Vinde, Espírito Santo». Contudo, quem assim reza já recebeu o Espírito uma vez. Quer dizer que o Espírito é algo que recebemos e que devemos receber sempre de novo.


3. O batismo no Espírito


Neste contexto, é preciso aludir ao chamado «batismo no Espírito», que há um século converteu-se em experiência viva para milhões de crentes de quase todas as denominações cristãs. Trata-se de um rito feito de gestos de grande simplicidade, acompanhados de disposições de arrependimento e de fé na promessa de Cristo: «O Pai dará o Espírito Santo a quem pedir».
É uma renovação e uma reativação, não apenas do batismo e da confirmação, mas de todos os eventos de graça do próprio estado: ordenação sacerdotal, profissão religiosa, matrimônio. O interessado prepara-se para isso – além de fazê-lo com uma boa confissão – através de encontros de catequese nos quais se pões de novo em contato vivo e gozoso com as principais verdades e realidades da fé: o amor de Deus, o pecado, a salvação, a vida nova, a transformação em Cristo, os carismas, os frutos do Espírito Santo. Todo um clima caracterizado de profunda comunhão fraterna.

Às vezes, em contrapartida, ocorre espontaneamente, fora de todo esquema; é como se fosse «surpreendido» pelo Espírito. Um homem deu este testemunho: «Estava no avião lendo o último capítulo de um livro sobre o Espírito Santo. Em certo momento, foi como se o Espírito Santo saísse das páginas do livro e entrasse em meu corpo. Começaram a brotar lágrimas dos meus olhos. Comecei a orar. Estava vencido por uma força muito acima de mim» [4].

O efeito mais comum desta graça é que o Espírito Santo, de ser um objeto de fé intelectual, mais ou menos abstrato, converte-se em um fato de experiência. Karl Rahner escreveu: «Não podemos contestar que o homem tenha aqui [na terra. N. do T.]
experiências de graça que lhe dão uma sensação de libertação, abrem-lhe horizontes completamente novos, imprimem-se profundamente nele, transformam-no, moldando, até por longo tempo, sua atitude cristã mais íntima. Nada impede de chamar tais experiências de batismo do Espírito» [5].

Através do que se denomina, precisamente, «batismo do Espírito», tem-se experiência da unção do Espírito Santo na oração, de seu poder no ministério pastoral, de seu consolo na provação, de sua guia nas decisões. Antes ainda que na manifestação dos carismas, é assim como se lhe percebe: como Espírito que transforma interiormente, dá o gosto do louvor a Deus, abre a mente à compreensão das escrituras, ensina a proclamar Jesus como «Senhor» e dá o valor de assumir tarefas novas e difíceis, no serviço de Deus e do próximo.

Neste ano, celebra-se o quadragésimo aniversário do retiro a partir do qual começou, em 1967, a Renovação Carismática na Igreja Católica, que se estima que chegou em poucos anos a não menos que 80 milhões de católicos. Eis aqui como descrevia os efeitos do batismo do Espírito sobre si mesma e sobre o grupo uma das pessoas que estavam presentes naquele primeiro retiro:

«Nossa fé se tornou mais viva; nosso crer se converteu em uma espécie de conhecimento. De repente, o sobrenatural se tornou mais real que o natural. Em uma palavra, Jesus é um ser vivo para nós… A oração e os sacramentos chegaram a ser realmente nosso pão de cada dia, deixando de ser umas genéricas ‘práticas piedosas’. Um amor pelas Escrituras que nunca podia imaginar, uma transformação de nossas relações com os demais, uma necessidade e uma força de dar testemunho muito além de toda expectativa: tudo isso chegou a fazer parte de nossa vida. A experiência inicial do batismo do Espírito não nos proporcionou uma especial emoção externa, mas nossa vida encheu-se de serenidade, confiança, alegria e paz… Cantamos o Veni creator Spiritus antes de cada reunião, levando a sério o que dizíamos, e tudo isso nos situa em uma perfeita atmosfera ecumênica» [6].

Todos vemos com clareza que estas são precisamente as coisas de que a Igreja mais necessita hoje para anunciar o Evangelho a um mundo relutante diante da fé e do sobrenatural. Não é que estejam chamados a experimentar a graça de um novo Pentecostes desta forma. Mas todos estamos chamados a não permanecer fora desta «corrente de graça» que a Igreja do pós-Concílio atravessa. João XXIII falou, em seu tempo, de um «novo Pentecostes»; Paulo VI foi além e falou de um «perene Pentecostes», de um Pentecostes contínuo. Vale a pena voltar a ouvir as palavras que ele pronunciou em uma audiência geral:

«Perguntamo-nos mais de uma vez… qual é a necessidade, primeira e última, que advertimos para esta nossa bendita e amada Igreja. Temos de dizer quase tremendo e suplicando, já que, como sabeis, trata-se de seu mistério e de sua vida: o Espírito, o Espírito Santo, o animador e santificador da Igreja, sua respiração divina, o vento que sopra em suas velas, seu princípio unificador, sua fonte interior de luz e força, seu apoio e seu consolador, sua fonte de carismas e cantos, sua paz e sua alegria, sua prenda e prelúdio de vida bem-aventurada e eterna. A Igreja necessita de seu perene Pentecostes: necessita do fogo no coração, palavra nos lábios, profecia no olhar… A Igreja necessita recuperar o ímpeto, a satisfação, a certeza de sua verdade» [7].

O filósofo Heidegger concluía sua análise da sociedade com a voz de alarme: «Só um deus pode nos salvar». Este Deus que nos pode salvar, e que nos salvará, nós, cristãos, o conhecemos: é o Espírito Santo! Atualmente cresce a moda da aromaterapia. Consiste na utilização de óleos essenciais que emanam perfume para manter a saúde ou como terapia de alguns transtornos. A internet está cheia de propagandas de aromaterapia. Não se contenta prometendo com eles bem-estar físico como a cura do estresse; existem também «perfumes da alma», por exemplo, o perfume para obter «a paz interior».

Os médicos convidam a desconfiar desta prática, que não está cientificamente comprovada e, mais ainda, em alguns casos tem contradições. Mas o que quero dizer é que existe uma aromaterapia segura, infalível, que não tem contra-indicações: a que está feita como o aroma especial, com o «sagrado crisma da alma», que é o Espírito Santo! Santo Inácio de Antioquia escreveu: «O Senhor recebeu sobre sua cabeça uma unção perfumada (myron) para exalar sobre a Igreja a incorruptibilidade» [8].

O Espírito Santo é especialista sobretudo nas doenças do matrimônio e da família, que são os grandes enfermos de hoje. O casamento consiste em doar-se um ao outro, é o sacramento de fazer-se doação. O Espírito Santo é o dom feito pessoa; é a doação do Pai ao Filho e do Filho ao Pai. Onde Ele chega, renasce a capacidade de tornar-se dom, e com ela a alegria e a beleza dos esposos de viverem juntos. O amor de Deus que Ele «derrama em nossos corações» reaviva toda expressão de amor, e em primeiro lugar o amor conjugal. O Espírito Santo pode fazer verdadeiramente da família «a principal agência de paz», como a define o Santo Padre na Mensagem para o próximo Dia Mundial da Paz.

São numerosos os exemplos de casamentos mortos que ressuscitaram a uma vida nova pela ação do Espírito. Recolhi justamente nestes dias o comovedor testemunho de um casal que tenho intenção de dar a conhecer em meu programa de televisão sobre o Evangelho pela festa do Batismo de Jesus…

O Espírito reaviva, naturalmente, também a vida dos consagrados, que consiste em tornar a própria vida um dom e uma oblação «de suave aroma» a Deus pelos irmãos (Ef 5,2).


4. A nova profecia de João Batista


Voltando a João Batista, ele pode nos iluminar sobre como levar a cabo nossa tarefa profética no mundo de hoje. Jesus define João Batista como «mais que um profeta», mas onde está a profecia em seu caso? Os profetas anunciavam uma salvação futura; mas o Precursor não é alguém que anuncia uma salvação futura; ele indica alguém que está presente. Então, em que sentido pode-se chamar profeta? Isaías, Jeremias, Ezequiel ajudavam o povo a superar a barreira do tempo; João Batista ajuda o povo a superar a barreira, ainda mais grossa, das aparências contrárias, do escândalo, da banalidade e da pobreza com que a hora fatídica se manifesta.

É fácil crer em algo grandioso, divino, quando se estabelece em um futuro indefinido: «naqueles dias», «nos últimos dias», em um contexto cósmico, com os céus destilando doçura e a terra abrindo-se para que germine o Salvador. É mais difícil quando se deve dizer: «Está aqui! É Ele!»

Com as palavras: «Em meio de vós há alguém a quem não conheceis!» (Jo 1, 26), João Batista inaugurou a nova profecia, a do tempo da Igreja, que não consiste em anunciar uma salvação futura ou distante, mas em revelar a presença escondida de Cristo no mundo. Em arrancar o véu dos olhos das pessoas, sacudir a indiferença, repetindo com Isaías: «Existe algo novo: já está a caminho; não o reconheceis?» (Is 43, 19).

É verdade que se passaram 20 séculos e que sabemos, sobre Jesus, muito mais que João. Mas o escândalo não desapareceu. Em tempos de João, o escândalo derivava do corpo físico de Jesus, de sua carne tão similar à nossa, exceto no pecado. Também hoje é seu corpo, sua carne, a que cria dificuldades e escandaliza: seu corpo místico, tão parecido com o restante da humanidade, sem excluir , lamentavelmente, nem sequer o pecado.

«O testemunho de Jesus – lê-se no Apocalipse – é o espírito de profecia» (Ap 19-10), isto é, para dar testemunho de Jesus, requer-se espírito de profecia. Existe este espírito de profecia na Igreja? Cultiva-se? Alimenta-se? Ou se crê, tacitamente, que se pode prescindir dele, apontando mais para meios e recursos humanos?

João Batista nos ensina que para ser profetas não se necessita de uma grande doutrina ou eloqüência. Ele não é um grande teólogo, tem uma cristologia bastante pobre e rudimentar. Não conhece ainda os títulos mais elevados de Jesus: Filho de Deus, Verbo, nem sequer o de Filho do homem. Mas como consegue fazer ouvir a grandeza e unicidade de Cristo! Usa imagens simples, de um camponês: «Não sou digno de amarrar as suas sandálias». O mundo e a humanidade aparecem, por suas palavras, dentro de uma peneira que Ele, o Messias, sustenta e agita com suas mãos. Perante Ele se decide quem permanece e quem cai, quem é grão bom e quem é palha que o vento leva.

Em 1992, celebrou-se um retiro sacerdotal em Monterrey, México, por ocasião dos 500 anos da primeira evangelização da América Latina. Estavam presentes 1.700 sacerdotes e cerca de 60 bispos. Durante a homilia da Missa conclusiva, falei da necessidade urgente que a Igreja tem de profecia. Depois da comunhão, orou-se por um novo Pentecostes em pequenos grupos distribuídos pela grande basílica. Eu tinha ficado no presbitério. Em certo momento, um jovem sacerdote aproximou-se em silêncio, ajoelhou-se e, com um olhar que jamais esquecerei, disse: «Abençoe-me, padre; quero ser profeta de Deus!». Eu estremeci, porque via que evidentemente a graça o movia.

Com humildade, poderíamos fazer nosso o desejo daquele sacerdote: «Quero ser um profeta para Deus». Pequeno, desconhecido de todos, não importa; mas alguém que, como dizia Paulo VI, tenha «fogo no coração, palavra nos lábios, profecia no olhar».

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[1] Cf. J. D.G. Dunn, Christianity in the Making, I. Jesus remembered, Grand Rapids. Mich. 2003, parte III, cap. 12, trad. ital. Gli albori del Cristianesimo, I, 2, Paideia, Brescia 2006, pp. 485-496.
[2] Bento XVI, Jesus de Nazaré, Planeta 2007, p. 275.
[3] S. Tommaso d’Aquino, Somma teologica, I,q.43, a. 6, ad 2.; cf. F. Sullivan, in Dict.Spir. 12, 1045.
[4] En “New Covenant”(Ann Arbor, Michigan), junio 1984, p.12.
[5] K. Rahner, Erfahrung des Geistes. Meditation auf Pfingsten, Herder, Friburgo i. Br. 1977.
[6] Testemunho de P. Gallagher Mansfield, As by a New Pentecost, Steubenville 1992, pp. 25 s.
[7] Discurso na audiência geral del 29 de novembro de 1972 (Insegnamenti di Paolo VI, Tipografia Poliglotta Vaticana, X, pp. 1210s.).
[8] S. Ignazio d’Antiochia, Agli Efesini 17.

Tradução: Élison Santos/Alexandre Ribeiro. Revisão: Aline Banchieri.



FRANCISCO E CLARA NOSSA SENHORA DE FÁTIMA

Guiados Pelo Espírito Santo.

Todos os que são guiados

pelo Espírito de Deus

São filhos de Deus

..

Espírito Santo fala

através da consciência,

explica pregador do Papa

Seu Coração é o Templo onde Deus Habita.

Seu Coração é o Templo onde Deus Habita.

3ª pregação de Quaresma do Pe. Cantalamessa.

Por Gisele Plantec

O Espírito Santo fala a cada pessoa através de sua consciência, indicando-lhe o que está bem e o que está mal, e a ajuda a tomar as decisões que correspondem à vontade de Deus, explica o pregador do Papa.

O Pe. Raniero Cantalamessa, ofmcap., pregador da Casa Pontifícia, dedicou ao tema «Todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus» a 3ª meditação da Quaresma que dirigiu em presença de Bento XVI e de seus colaboradores da Cúria Romana na capela «Redemptoris Mater» do Vaticano.

Antes de tudo, explicou que ao ler as Escrituras podemos descobrir como o Espírito Santo guia os crentes de duas maneiras: por uma parte, através de sua consciência; por outra, através do Magistério da Igreja.

O pregador da Casa Pontifícia sublinhou que o Espírito Santo não é só quem guia «para a verdade completa», segundo as palavras de João evangelista, mas também é o «mestre interior», como o define São Paulo, pois «não se limita a indicar o que se deve fazer, e sim também dá a capacidade de fazer o que manda».

O Pe. Cantalamessa explicou que o âmbito no qual o Espírito Santo exerce sua função de guia é a consciência.

«Através deste ‘órgão’, a guia do Espírito Santo se estende também fora da Igreja, a todos os homens», precisou o pregador.

«Neste âmbito íntimo e pessoal da consciência, o Espírito Santo nos instrui com as ‘boas inspirações’ ou as ‘iluminações interiores’ – sublinhou. São impulsos a seguir o bem e a rejeitar o mal, atrações e propensões do coração que não se explicam naturalmente, porque com frequência vão em direção contrária ao que a natureza queria.»

Mas o Espírito Santo guia também os crentes através do Magistério da Igreja, continuou explicando o pregador da Casa Pontifícia.

«É igualmente fatal pretender prescindir de uma ou de outra das duas guias do Espírito. Quando se descuida do testemunho interior, cai-se facilmente no legalismo e no autoritarismo; quando se descuida do exterior, apostólico, cai-se no subjetivismo e no fanatismo.»

«Quando tudo se reduz à escuta pessoal, privada, do Espírito, abre-se o caminho a um processo irrefreável de divisões e subdivisões, porque cada um crê que tem razão», disse.

«Mas devemos reconhecer que existe também o risco oposto: o de absolutizar o testemunho externo e público do Espírito, ignorando o individual que se exerce através da consciência iluminada pela graça.»

«O ideal é uma sã harmonia entre a escuta do que o Espírito me diz, singularmente, e o que diz à Igreja em seu conjunto e, através da Igreja, a cada um», disse o Pe. Cantalamessa.

O pregador concluiu explicando como o Espírito Santo ajuda concretamente o crente a realizar o discernimento necessário na vida espiritual.

Citou a doutrina sobre o discernimento de Santo Inácio de Loyola, que quer ajudar o crente a «ver o que Deus quer em uma circunstância precisa», insistindo no fato de que a condição mais favorável para um bom discernimento é uma «disposição de fundo» a fazer a vontade de Deus.

«Como bons atores», exortou o pregador, devemos «ter o ouvido atento à voz do ‘auxiliar de palco’ escondido, para recitar fielmente nossa parte no cenário da vida. É mais fácil do que se pensa, porque nosso ‘auxiliar de palco’ nos fala dentro, ensina-nos todas as coisas e nos instrui em tudo. Basta às vezes um simples olhar interior, um movimento do coração, uma oração».

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CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 27 de março de 2009 (ZENIT.org).

ZP09032710 – 27-03-2009
Permalink: http://www.zenit.org/article-21210?l=portuguese

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Efusão no Espirito Santo.



O Batismo no Espírito Santo


O “século da Igreja”, como foi muitas vezes definido o século XX, já se iniciara sob o signo de uma necessidade: o desejo da presença criadora e libertadora do Espírito.


História da RCC.

VATICAN-EASTER-POPE-LORD-PASSION-CANTALAMESSA


Texto do Rev. Padre Raniero Cantalamessa

Tradução: Marta Neves

Sumário: O Batismo no Espírito Santo não é um sacramento, mas está relacionado aos mesmos. O Batismo no Espírito “aviva” e, de uma maneira, renova a iniciação Cristã. No início da Igreja, o Batismo era administrado para adultos convertidos do paganismo e para aqueles que podiam fazer, na ocasião do Batismo, um ato de Fé, e de uma livre e madura escolha. Hoje em dia isto é substituído por pais intermediários ou padrinhos. Nesta situação, raramente, ou nunca, a pessoa batizada está na fase de proclamar, no Espírito Santo, que “Jesus é o Senhor”. E até que chegue neste ponto, todo o resto na vida cristã continua fora de foco e imaturo. Milagres acontecem já não temos experiência e aquilo que Jesus fez em Nazaré: “E por causa da falta de confiança deles, operou ali poucos milagres ” (Mt.13.58). A eficácia do Batismo no Espírito em reativar o batismo consiste nisto: finalmente o homem contribui com sua parte – ou seja, ele faz a escolha da fé, preparada no arrependimento, o que permita o trabalho de Deus tornar livre a si mesmo e para emanar toda sua força. “Isto é como se a tomada estivesse desligada e a luz ligada”. O dom de Deus é finalmente “desvinculada” e do Espírito é permitida a fluir como uma fragrância na vida cristã.

Antes de falar sobre o Batismo no Espírito, é importante tentar entender do que se trata a Renovação no Espírito. Depois do Concílio Vaticano II, muitas coisas na vida da Igreja foram renovados – a liturgia, pastoral, Lei canônica, as constituições das ordens religiosas e os seus adornos. Embora todas essas coisas sejam importantes, são apenas coisas externas e ai de nós, se ficarmos por aí e pensar que a tarefa está concluída, porque não se trata de estruturas, mas almas, que são importantes para Deus. “É na alma dos homens que a Igreja é bela”, escreve São Ambrósio, e, por conseguinte, é na alma dos homens que ela deve tornar-se bela.

Deus é o autor e o poder

A Renovação é uma renovação em que Deus, não o homem, é o princípio autor. “Eu, não você”, diz Deus, “faço novas todas as coisas” (Rev 21:5); “Meu Espírito – e Ele sozinho – podem renovar a face da terra” (ver Salmos 104:30). Desde o ponto de vista religioso, que tendem a ver as coisas de uma perspectiva ptolemaica: a fundação existem os nossos esforços – organização, a eficácia das reformas, boa vontade – com a terra aqui como o centro, que Deus vem para reforçar e coroa, Por Sua graça e o nosso esforço.

Nós devemos – neste momento a Palavra de Deus exclama – “ Devolva o poder a Deus” ( PSalm 68:35) porque “ o poder pertence a Deus” ( PSalm 62:12).
Por muito tempo, nós usurpamos este poder de Deus, gerenciando-o como se fosse nosso, como se nós fôssemos capazes de governar o poder de Deus Temos de mudar totalmente nossa perspectiva . Ou seja, a reconhecer simplesmente que sem o Espírito Santo, nós não podemos fazer nada, nem ao menos dizer: “ Jesus é o Senhor!” ( I Cor 12:3).

Batismo no Espírito e o Sacramento do Batismo

O Batismo no Espírito não é um Sacramento, mas está relacionado com um Sacramento, com vários sacramentos, de fato – para os Sacramentos de iniciação Cristã. O Batismo no Espírito torna real, e de uma maneira renova a Iniciação Cristã. O relacionamento primário é com o Sacramento do Batismo. De fato, esta experiência é chamada de Batismo no Espírito

Nós acreditamos que o Batismo no Espírito torna real e revitaliza nosso batismo. Para entender como um Sacramento que foi recebido a tantos anos atrás, normalmente logo após nosso nascimento, subitamente poderia voltar a vida e emanar tanta energia, como muitas vezes acontece através do batismo no Espírito, é importante olhar para o nosso entendimento da teologia sacramental.

Teologia católica reconhece o conceito de um válido, mas “amarrado” Sacramento. Um sacramento é chamado de atado se o fruto que deverá acompanhar permanece vinculado, devido a alguns quarteirões que impedem a sua eficácia. Um exemplo extremo desta situação é o Sacramento do Matrimónio ou a Ordem Sacerdotal recebidas no estado de pecado mortal. Em tais circunstâncias estes sacramentos não podem conceder quaisquer graça para as pessoas até o obstáculo do pecado ser eliminado através da penitência. Quando isso acontecer o sacramento é dito para viver novamente graças ao caráter indelével e irrevogabilidade do dom de Deus: Deus permanece fiel, mesmo se formos infiéis, porque Ele não pode negar-se (ver Timóteo 2:13).

No caso do batismo o que é que faz com que os frutos do Sacramento fiquem vinculados? Os sacramentos não são rituais mágicos que atuam mecanicamente, sem o conhecimento da pessoa ou desrespeitando qualquer resposta de sua parte. A sua eficácia é o fruto de uma sinergia ou cooperação entre Onipotência Divina – na realidade, a graça de Cristo ou o Espírito Santo – e liberdade humana, porque, como disse Santo Agostinho, “Aquele que criou você sem sua cooeração, não lhe salvará sem sua cooperação. ”

O opus operatum do batismo, ou seja, uma parte ou graça de Deus, tem vários aspectos – perdão dos pecados, o dom do teológico virtudes da fé, esperança e caridade (estes, porém, apenas como uma semente), e divina filiação– — Todos os quais são operados através da ação eficaz do Espírito Santo. Mas o que faz o opus operantis no batismo – ou seja, o homem faz parte, constituída por? Consiste de fé! Quem acredita e é batizado será salvo (Marcos 16:16). Ao lado do batismo, portanto, há outro elemento: a fé do homem. “Para todos que O receberam, Ele deu o poder de se tornarem filhos de Deus: aos que crêem no Seu nome” (João 1:13).

Batismo é como um selo divino posto sobre a fé do homem: depois de ter ouvido a palavra da verdade, o evangelho da salvação, e ter acreditado no mesmo, que tenha recebido (naturalmente, em batismo), o selo do Espírito Santo (cf. Efésios 1:13)

Batismo e Confirmação da Fé

No início da Igreja, Batismo foi um evento poderoso e tão rico em graça que não era necessária uma nova efusão do Espírito como temos hoje. Batismo era ministrado aos adultos que convertidos de paganism e que, devidamente instruído, estavam em posição de fazer, por ocasião do batismo, um ato de fé e uma escolha livre e madura. É suficiente para ler a Catequese Mistagógica sobre batismo atribuído a Cirilo de Jerusalém tornar-se consciente da profundidade da fé para aqueles que esperam pelo batismo serem liderados. Em substância, que chegou ao batismo através de uma verdadeira e real conversão e, assim, para eles batismo era um verdadeiro lavar, uma renovação pessoal, bem como um renascimento no Espírito Santo.

As circunstâncias favoráveis que permitiu batismo, com as origens da Igreja, para operar com tanta força que foi a graça de Deus e a resposta do homem reunidas ao mesmo tempo, e havia uma perfeita sincronização.

Batismo na Infância em Ambientes não-cristãos

Mas agora esta sincronização foi quebrada, como somos batizados quando crianças, e pouco a pouco este aspecto do livre e pessoal ato de fé já não acontece. Foi substituído em vez por uma decisão por intermédio de pais ou padrinhos. Quando uma criança cresceu em um ambiente totalmente cristão, esta fé ainda poderá prosperar, embora a um ritmo mais lento. Agora, porém, já não é este o caso e nosso ambiente espiritual é ainda pior do que o que se encontrava no momento da Idade Média. Não é que não haja vida cristã normal, mas isso agora é a exceção e não a regra.

Nesta situação, raramente, ou nunca, a pessoa batizada vai chegar à fase de proclamar no Espírito Santo, “Jesus é o Senhor.” E até um chegar neste ponto, todo o resto na vida cristã continua fora de foco e imaturo. Milagres já não acontecem e nós experimentamos o que Jesus fez em Nazaré: “Jesus não pôde realizar muitos milagres por causa da sua falta de fé”. (Mt 13. 58)

Vontade de Deus

Aqui, então, é o que eu sinto, é o significado do batismo no Espírito. É Deus respondendo a esta avaria que tem crescido na vida cristã no Sacramento do Batismo.

É um fato aceitável que, ao longo dos últimos anos, tem havido uma certa preocupação por parte da Igreja, entre os bispos, que os Sacramentos Cristãos especialmente batismo, serão administrados por pessoas que não irão fazer qualquer uso delas na vida . Como resultado, ele tem mesmo sido sugerido que o batismo não deve ser administrado a não ser que existam algumas garantias mínimas de que será cultivada e valorizada pela criança em questão. Pois não se deve atirar pérolas aos cães, como disse Jesus, e batismo é uma pérola, porque é fruto do sangue de Cristo.

Mas parece que Deus estava preocupado com esta situação, mesmo antes de a Igreja ser, e levantou-se aqui e ali na Igreja movimentos destinados a renovar a iniciação cristã dos adultos. A Renovação Carismática é um desses movimentos em que a graça principal é, sem dúvida, ligada ao Batismo do Espírito e ao que vem antes dele.

Lançamento e Confirmação de Fé

A Eficácia na reativação do Batismo consiste em : finalmente o homem contribui com sua parte – ou seja, ele faz a escolha da fé, preparada no arrependimento, o que permita o trabalho de Deus tornar livre a si mesmo e para emanar toda sua força. Isto é como se a tomada estivesse desligada e a luz ligada”. O dom de Deus é finalmente “desvinculada” e o Espírito é permitida a fluir como uma fragrância na vida cristã.

Para além da renovação da graça do batismo, o Batismo no Espírito é também uma confirmação do próprio batismo, um deliberado”sim” para ele, para os seus frutos e os seus compromissos, e, como tal, também é muito semelhante à Confirmação . Confirmação sendo o sacramento que desenvolve, confirma, e traz a conclusão do trabalho de batismo. A partir dele, também, que vem o desejo de um maior envolvimento na dimensão apostólica e missionária da Igreja que é geralmente observada em quem recebe o Batismo no Epírito.

Eles se sentem mais inclinados a cooperar com a criação da Igreja, a pôr-se em Seu serviço em diversos ministérios tanto clerical e leigos, a testemunha de Cristo – para fazer todas essas coisas que recordam o acontecimento de Pentecostes e que são acionados no Sacramento da Confirmação.

O batismo do Espírito não é a única ocasião conhecido dentro da Igreja para essa revitalização dos sacramentos da iniciação. Existe, por exemplo, a renovação das promessas batismais na vigília da Páscoa, e existem os exercícios espirituais, religiosos e as profissões, muitas vezes chamado de “segundo batismo”. E em um nível sacramental há confirmação.

Também não é difícil descobrir nas vidas dos santos, a presença de uma efusão espontânea, especialmente na ocasião de sua conversão. A diferença com o batismo no Espírito, porém, é que ele está aberto a todo o povo de Deus, pequenp ou grande, e não apenas para aqueles privilegiados aqueles que fazem os Exercícios Espirituais Inacianos ou fazer uma profissão religiosa.

A Vontade de Deus na História

De onde esta força extraordinária que nós experimentamos quando fomos Batizados no Espírito vem?O que estamos a falar não é apenas uma teoria, mas algo que nós próprios experimentamos e, portanto pode-se dizer com João “O que ouvimos, o que vimos com os nossos próprios olhos, o que nossas mãos tocaram , este também anunciará , Para que você também esteja em comunhão conosco “. (Ver l João 1:1-11 A explicação desta força está no desejo de Deus – porque Deus está satisfeito em renovar a igreja hoje por este meio – e isto é suficiente.
Há certamente alguns precedentes bíblicos, como o disse em Atos 8:14-17, quando Pedro e João, depois de ter ouvido que Samaria congratulou-se com a Palavra de Deus, foram enviados até lá, oraram por eles, e lançaram as mãos sobre eles para que pudessem Receber o Espírito Santo. Mas estes precedentes bíblicos, não são suficientes para explicar a amplitude e a profundidade da contemporânea manifestação da efusão do Espírito.

Podemos dizer, parafraseando um famoso dito do Apóstolo Paulo: Em razão dos cristãos, com toda sua organização, não serem capazes de transmitir o poder do Espírito, Deus estava satisfeito para renovar os fiéis através da insensatez do Batismo no Espírito. na verdade, teólogos procuram por uma explicação e por pessoas responsáveis por moderação, mas almas simples tocam com suas mãos o poder de Cristo no Batismo no Espírito”(1 Cor 12:1-24).

Nós homens e, em particular, os homens da Igreja, tendem a limitar Deus em Sua liberdade: que tendem a insistir em que ele segue um padrão obrigatório (os chamados canais de graça) e nos esquecemos de que Deus é uma torrente que rompe e solto Cria o seu próprio caminho e que o Espírito sopra onde e como Ele quer (não obstante o papel do ensino da Igreja para discernir o que realmente vem do Espírito e que não vêm de Deus). No que consiste o Batismo do Espírito e como ele funciona?
Há um segredo no Batismo do Espírito, misterioso mover de Deus que é o Sua maneira de se tornar presente, de uma maneira que é diferente para cada um, porque só Ele conhece o mais íntimo de nós e como agir na nossa única personalidade Há também a parte externa da comunidade, que é a mesma para todos e que consiste principalmente de três coisas: amor fraterno, imposição de mãos, e oração. Estes são não-sacramentais, mas simples elementos eclesiásticos.

O Espírito Santo Procedendo do
Pai e do Filho

De onde vem a graça que experimentamos no Batismo no Espírito? Dos que estão ao nosso redor? Não! Da pessoa que o recebe? Não! Ela vem de Deus! Somente podemos dizer que semelhante graça está relacionada ao batismo, pois Deus age sempre com coerência e credibilidade e Ele não faz e depois desfaz. Ele honra os compromissos e instituições de Cristo. Uma coisa é certa – que não são os irmãos quem transmitem o Santo Espírito, mas eles o invocam na pessoa. O Espírito não pode ser dado a qualquer homem, nem ao Papa ou a um bispo, porque nenhum homem possui por si mesmo o Espírito Santo. Somente Jesus pode dar o Espírito Santo; todos os outros não o possuem, pelo contrário, são possuídos por Ele. Quanto à <> desta graça, podemos falar de uma nova chegada do Espírito Santo, de uma nova missão do Pai por meio de Jesus Cristo ou de uma nova unção correspondendo a um novo grau de graça.

A fonte deste Texto é o Blog:

Sobre a Rocha de Pedro

Fernando Nascimento

Mas sobre o blog carismático do título… É o blog do estudante de filosofia, Fernando Nascimento (foto), e chama-se Sobre a Rocha de Pedro. O blogueiro é secretário do Conselho Nacional da RCC/Brasil e conta-nos sobre o “batismo no Espírito Santo“. seus textos são na sua grande maioria sobre a Renovação Carismática católica, sua História e ação dentro da Igreja nos dias de hoje.


 



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