Todo amor dá fruto. – SNF – 2015.


– VI tema da Semana Nacional da Família – 2015.



Todo_amor_da_fruto



Nem todos são chamados ao matrimônio. Mas toda vida é destinada a ser fecunda. Toda vida tem o poder e a necessidade de nutrir nova vida –se não for por meio da geração e criação de filhos, então por outros meios vitais de doação, realização de obras e de serviços. A Igreja é uma família com diferentes vocações, cada uma distinta, mas cada uma necessita das outras e se apoiam mutuamente. O sacerdócio, a vida religiosa e a vocação do celibato laical enriquecem e são enriquecidos pelo testemunho do estado matrimonial. As diferentes maneiras de ser casto ou celibatário fora do matrimônio são formas de doar a vida ao serviço de Deus e da comunidade humana.

  1. Dois sacramentos da Igreja são os únicos dedicados “à salvação dos outros.” A Ordem e o Matrimônio “conferem uma graça especial para uma missão particular na Igreja em ordem à edificação do povo de Deus”. (91)
  2. Em outras palavras, nem todos homens e mulheres precisam ser pais biológicos para irradiar o amor de Deus ou para fazer parte da “família de famílias” que conhecemos como sendo Igreja. A vocação para o sacerdócio, ou voto de vida religiosa, tem a sua própria integridade e honra. A Igreja sempre precisa de padres e religiosos, e os pais devem ajudar todos os seus filhos e filhas a estar atentos à possibilidade de que Deus possa estar chamando-os para oferecer a sua vida dessa forma.
  3. Além disso, há muitos leigos celibatários que têm o seu próprio papel insubstituível na Igreja. A Igreja conhece muitas distintas maneiras de se viver o celibato, mas todas são, de uma forma ou outra, um chamado para servir a Igreja e fomentar a comunhão de modo a serem análogas à paternidade.
  4. O celibato autêntico – seja leigo, ordenado ou consagrado – é orientado para a vida social e comunitária. Ser um “pai espiritual” ou “mãe espiritual” – talvez como membro do clero ou religioso, mas também como padrinho, um parente adotado, ou um catequista ou professor, ou simplesmente como mentor e amigo – é uma vocação estimada, algo essencial para uma comunidade cristã saudável e próspera.
  5. São João Paulo II uma vez refletiu sobre as qualidades maternas de Madre Teresa, e, por extensão, sobre a fecundidade e a fertilidade espirituais da vida celibatária em geral:
    • É muito habitual chamar “madre” a uma religiosa. Mas em Madre Teresa este apelativo assumiu uma intensidade especial. Uma mãe conhece-se pela capacidade de se dar. Observar Madre Teresa no trato, nas atitudes, no modo de ser, ajudava a compreender o que significava para ela, além da dimensão puramente física, ser mãe; ajudava-a a chegar à raiz espiritual da maternidade. Sabemos bem qual era o seu segredo:  ela estava cheia de Cristo e, por isso, olhava para todos com os olhos e o coração de Cristo. Tinha tomado a sério a sua palavra “Tive fome e destes-me de comer…” (Mt  25, 35) Por isso, não se cansava de “adotar” como filhos os seus pobres. O seu amor era concreto, empreendedor; levava-a onde poucos tinham coragem de chegar, onde a miséria era tão grande que provocava medo. Não me admira que os homens do nosso tempo sejam atraídos e fascinados por ela. Pois encarnou aquele amor que Jesus indicou como distintivo para os seus discípulos:  “Assim, todos saberão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13, 35). (92)

    Vidas radiantes como a da Beata Teresa de Calcutá e São João Paulo II mostram que o celibato nas suas diversas variações pode ser uma maneira interessante, um belo caminho de vida. A lógica e as possibilidades do celibato

  6. Anteriormente nesta catequese, citando Santo Agostinho, vimos que a proposta de ter filhos não era apenas continuar a espécie ou construir uma sociedade civil, porém, cumular a cidade celestial com a alegria de uma nova vida. Esta distinção – entre a meta natural de procriação e a vocação teológica para se preparar para o Reino de Deus em plena realização – permite a Igreja fazer mais uma afirmação: para cumprir o seu destino como homens e mulheres, todas pessoas podem ser fecundas, mas nem todos precisam se casar.
  7. A Igreja oferece o casamento como uma vocação, uma possibilidade; por isso não pode ser uma lei ou um requisito para uma realizada vida católica. (93) Segue-se, então, que o celibato precisa existir na vida social da Igreja para que o casamento seja uma questão de liberdade em vez de impulso. Se existe de fato mais de uma maneira de ordenar a própria vida sexual, a masculinidade ou a feminilidade em relação à vida eterna, o celibato é esta alternativa. “A família é a vocação que Deus inscreveu na natureza do homem e da mulher, mas existe outra vocação complementar ao matrimônio: o chamamento ao celibato e à virgindade pelo Reino dos céus. Foi a vocação que o próprio Jesus viveu.”(94)
  8. Celibato e casamento não competem um com o outro. Mais uma vez, como Santo Ambrósio ensinou: “nós não louvamos nenhum para a exclusão dos outros… Isto é o que faz a riqueza da disciplina da Igreja”. (95) Celibato e matrimônio são vocações complementares, pois ambos proclamam que a intimidade sexual não pode ser testada. (96) Tanto celibatários como pessoas casadas respeitam a estrutura do amor da aliança e evitam o “teste” ou a intimidade condicional. (97) Tanto o celibato como o casamento rejeitam o sexo no contexto chamado pelo Papa Francisco de “cultura do descartável.” (98) Tanto o celibato como o casamento rejeitam relações sexuais condicionadas meramente na satisfação de desejos eróticos.
  9. Observar a disciplina do celibato ou a do casamento são dois caminhos para homens e mulheres estarem em solidariedade um com o outro e evitarem servir só aos desejos sexuais. Celibato e casamento são as únicas duas maneiras de vida que convergem com a conclusão de que o casamento é a forma plenamente humana para atos da procriação, à luz da imagem de Deus que habita em nós e molda as nossas vidas. O celibato – que não só inclui padres e religiosos consagrados, porém todos que são castos fora do matrimônio – é o modo de vida de pessoas que não são casadas, mas que honram com as alianças.
  10. Tudo o que a Igreja tem ensinado sobre ser criado para a felicidade, sobre ser criado à imagem de Deus, sobre precisar amar e ser amado serve tanto para as pessoas celibatárias quanto para as que são casadas. O celibato pode ser confirmado e permanente, como no caso da vida religiosa consagrada, ou no caso de alguém incapaz de se casar por causa de deficiência ou outra circunstância, ou pode ser só potencialmente permanente, como no caso de uma pessoa jovem discernindo sua vocação. Em todos estes casos, o celibatário segue os passos de Jesus, amadurecendo, oferecendo o seu “eu” a Deus, confiando no seu plano e construindo uma vida baseada no amor para com os outros com piedade, paciência generosidade e serviço.
  11. Em qualquer sociedade, muitos serão marginalizados se o casamento é visto como obrigatório, como se fosse preciso ter um parceiro romântico para ser completo. O celibato na Igreja rebela-se contra esta idéia enganosa. Por exemplo, viúvas muitas vezes são deixadas de lado em sociedades tradicionais, e pessoas solteiras em sociedades modernas freqüentemente socializam-se em clubes, pubs e bares onde a promiscuidade é comum. Criar espaço alternativo, onde as pessoas que não são casados possam experimentar a felicidade e ter uma missão, é uma significativa hospitalidade, algo que cristãos precisam empreender uns para com os outros como forma de libertação e acolhimento.
  12. Algumas pessoas querem se casar, mas não conseguem achar um cônjuge, devido a circunstâncias alheias à sua vontade. Uma vida de esperança e espera não significa abandono a uma existência estéril. Quando se vive em prontidão ativa à vontade de Deus ao modo como esta vontade se desenvolve na história pessoal de cada um, fazendo do “faça-se” de Maria o seu próprio, bênçãos poderão advir. (99) Assim como todos são chamados a dar e receber amor, como o amor cristão é voltado para fora, o celibato é uma prática de comunhão. Quando nos amamos uns aos outros castamente fora do casamento, o fruto é a amizade: “A  virtude da castidade expande-se na  amizade […]. A castidade exprime-se especialmente na amizade para com o próximo. Desenvolvida entre pessoas do mesmo sexo ou de sexos diferentes, a amizade representa um grande bem para todos. Conduz à comunhão espiritual.” (100)
  13. Celibatários – e de forma limitada, mas análoga, os casais inférteis – também desfrutam de uma liberdade única, uma liberdade atrativa para certos tipos de serviço, amizade e comunidade. Celibatários e sem filhos são relativamente mais disponíveis para a experiência casta na vida em comunidade, para carreiras que exigem flexibilidade, para oração e contemplação. Os celibatários, casais sem filhos, pessoas idosas, mesmo saudáveis (talvez com filhos adultos) têm benefícios relacionados ao tempo que muitos pais normalmente não têm. Essas pessoas podem se dedicar ao trabalho catequético e a outros ministérios paroquiais, e até apostolados e testemunhar em situações perigosas o que seria impossível para famílias com filhos. Os solteiros ou os casais sem filhos desfrutam de uma disposição que lhes dá mais discrição e criatividade com relação às possibilidades de hospitalidade e amizade. Quando São Paulo aconselha o celibato, pensa estar propondo uma possibilidade que tem os seus desafios, mas também tem os seus benefícios e liberdades: “Se, porém, casares, não estarás pecando. E, se a virgem se casar, não peca. Mas as pessoas casadas terão as tribulações da vida matrimonial, e eu gostaria de poupar-vos isso. Eu gostaria que estivésseis livres de preocupações. Gostaria de vê-los livres de preocupações.” (1Cor 7, 28 e 32a) A aliança espiritual e social entre celibato e casamento
  14. O Catecismo da Igreja Católica diz que “todos os fiéis de Cristo são chamados a viver uma vida casta de acordo com seus estados particulares de vida. No momento do seu Batismo, o cristão se compromete a viver a sua vida afetiva em castidade”. (101) O celibato, portanto, é aliado ao casamento, fazendo semelhante oferecimento interno de si mesmo ao Senhor. Tanto pessoas celibatárias como casadas comprometem a sua vida por meio da aliança com Deus de acordo com as suas respectivas vocações. Existem diferenças práticas na vocação de cada indivíduo particular, mas o movimento interno da alma, o próprio oferecimento do coração, é semelhante em seu núcleo. Celibatários e cônjuges maduros estão familiarizados, de modo sábio, com muitas das mesmas habilidades espirituais.
  15. No caso do casamento, quando esposos e esposas se doam um ao outro, com um amor que imita Jesus, o dom mútuo de si mesmo é parte da obra de Cristo, se unindo ao mesmo espírito de doação do próprio Jesus à Igreja. Quando os cônjuges trocam os seus juramentos na Igreja, na sua liturgia de casamento, Cristo recebe o seu amor nupcial e faz com que seja parte do seu próprio dom eucarístico de si para a Igreja e para o Pai que, glorificado com o sacrifício do Filho, concede o Espírito Santo aos cônjuges para selar a sua união. (102) A nupcial fecundidade, assim, é antes de tudo o dom e a tarefa do vínculo sacramental. É exatamente por isso que São João Paulo II disse, de modo belo, que o vínculo nupcial que aos cônjuges foi dado para desfrutar e viver faz deles “a lembrança permanente para a Igreja do que aconteceu na Cruz; são para eles mesmos e para os filhos testemunhas da salvação da qual o sacramento os faz participar”. (103)
  16. No caso de celibato, um raciocínio semelhante é possível. O amor de Cristo é continente porque faz dele mesmo uma doação total; uma afirmação incondicional do outro “o que o homem poderá dar em troca da sua vida?” (Mt 16, 26) O amor de Cristo é expresso no seu desejo de compartilhar tudo de si com os seus discípulos (cf. Lc 22, 15), para dar-se totalmente a eles e trazer a todos de volta ao Pai e compartilhar a própria glória de Deus. (104) O amor matrimonial é a lógica da aliança que define o modo como procriamos; amor celibatário é a lógica da aliança vitalizada na comunidade inteira.
  17. Como casamento e celibato são vocações complementares para adultos católicos, deveríamos criar os nossos jovens para perceber que um parceiro romântico não é essencial para a felicidade humana. Se o casamento em si toma forma de aliança de Jesus conosco, e se esta aliança também cria a possibilidade, então a vida de jovens que não são casados é melhor compreendida, não em termos de namoro ou relacionamentos esporádicos, mas como um tempo de discernimento e cultivo de amizades. Os hábitos e habilidades de verdadeira amizade são básicos para a vida, tanto no casamento como em comunidades celibatárias. A questão sobre a vocação que adolescentes e outros jovens enfrentam hoje em dia precisa envolver mais do que preferência romântica. Os jovens precisam adquirir certas habilidades internas espirituais, independentemente do que sua vida futura lhes reserva.
  18. Por esta razão, as paróquias deveriam prestar muita atenção à dimensão social da castidade e do celibato. O celibato impõe desafios únicos, e, como o Catecismo da Igreja Católica observa, aprender o autodomínio sexual implica um aspecto cultural: somos pessoas independentes, e viver a castidade pode tanto ser facilitado como impedido pela nossa situação social. (105) As possibilidades de vida que os jovens pensam ser imagináveis dependem dos exemplos que veem e das histórias que ouvem.
  19. Como o celibato é tão “contracultura”, existe ainda o risco de que, mesmo nas paróquias, não seja completamente entendido. Pessoas solteiras “merecem, portanto, a estima e a solicitude atenta da Igreja, particularmente dos pastores.” (106) Não só os pastores, mas também a família e as pessoas solteiras deveriam dar passos concretos para garantir que “solteiro”, no contexto católico, claramente não é o mesmo que solitário ou isolado. Pessoas solteiras precisam de comunhão para compartilhar os seus fardos e tristezas, bem como a responsabilidade e a oportunidade de serviço. “Mas a todas é necessário abrir as portas dos lares, ‘igrejas domésticas’, e da grande família que é a Igreja devem estar abertas” para os não casados.” (107)
  20. Esta visão sugere uma necessidade para todos examinarem como se contribui para a atmosfera e a essência da vida paroquial. Se os pais desencorajam os filhos ao sacerdócio, à vida religiosa consagrada, ou a outras vocações celibatárias, então a comunidade inteira deveria examinar a sua consciência. O celibato autêntico sempre é ricamente social, e se o celibatário é visto como unicamente solitário ou alienado, então algo na prática ou na estrutura da vida da comunidade está errado. Os celibatários devem tomar iniciativas para servir e envolver-se, e as famílias devem tomar medidas para ser hospitaleiras, para adotar “tias” e “tios” e para ser inclusivos na construção de famílias ampliadas ou comunidades intencionais.
  21. Uma rica vida social faz todo tipo de celibato mais plausível para o mundo, porque enfraquece a crítica do celibato que diz que semelhante vida é inevitavelmente solitária. Para assumir esta visão, para superar a inércia dos hábitos sociais que segregam solteiros e negligenciam as oportunidades do celibato, exige-se um compromisso criativo, tanto por parte de leigos como do clero. Jesus é o nosso Senhor, e o Senhor diz que “através deste testemunho todos reconhecerão que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns pelos outros.” (Jo 13, 35). O amor deve visivelmente animar a vida paroquial para todos.
  22. O Celibato não é estéril, nem é “solteiro” no sentido de isolado ou autônomo. Na Igreja, todos somos interdependentes, criados para a comunhão, criados para dar e receber amor. Esta visão da vida humana gera inesgotável variedade de vocações criativas. O celibato possui exigências únicas para aqueles que o adotam, mas celibatários também têm privilégios e oportunidades únicas. Celibatários respeitam o potencial sexual ou biológico do casamento, e agem a partir de uma semelhante lógica e doação espiritual. Os celibatários e casais casados precisam um do outro para sustentar e crescer a “ família de famílias” que é chamada Igreja.

Questões para partilha

  1. a) O que o celibato e o casamento têm em comum?
  2. b) Quais são alguns dos desafios e fardos que pessoas solteiras enfrentam na sua comunidade? Como podem amigos, famílias e paró- quias as ajudar? Quais são alguns dos benefícios do celibato? Como as pessoas solteiras podem servir à comunidade?
  3. c) As crianças na sua paróquia chegam a conhecer uma variedade de padres, monges, freiras, e outras irmãs religiosas? Pode pensar em maneiras de introduzir exemplos de celibato na sua comunidade? Você tem encorajado crianças que você conhece para ser padre ou religioso consagrado? Por que sim ou por que não?
  4. d) Que boas razões para se escolher o casamento ou o celibato? Quais são as razões desfavoráveis? Como uma pessoa deve discernir a sua vocação?

  1. VI. Todo amor dá fruto  

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Fonte em PDF: http://www.worldmeeting2015.org/

Observações Notas Finais do texto:

  1. Compêndio do Catecismo da Igreja Católica (CCIgC) (2005), 321. 92. Papa João Paulo II, Discurso “Encontro das famílias adotivas organizado pelas Missionárias da Caridade” (5 de setembro de 2000) 93. Cf. 1Cor 7,25-40. 94. Papa Francisco, Discurso “Encontro com os jovens da Região da Úmbria” Assis (4 de outubro de 2013). 95. CIgC, 2349, citando St. Ambrósio, De viduis 4.23 96. Cf. CIgC, 1646. Veja-se acima n. 58. 97. Cf. CIgC, 2391. Veja-se acima n. 58. 98. Veja-se acima n. 60. 99. Cf. Lc 1, 38. 100. CIgC, 2347. 101. CIgC, 2348. 102. CIgC, 1624. 103. FC, 13 104. Cf. Jo 1,14; 17, 24. 105. CIgC, 2344. 106. CIgC, 1658. 107. CIgC, 1658.

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